Thursday, March 4, 2010

Fui da Laboralia

Ontem despedi-me.

Amei cada projecto que criei nesta empresa.
Adorei as danças de vitória que fizemos sempre que nos atribuiram projectos cada vez maiores.
Achei geniais os momentos de formação inovadora que tivemos.
Fui tocada por comentários e histósiras geniais que foram ocurrendo ao longo destes 17 meses.

Mas ontem, depois de umas semanas agitadas, pautadas por arritmias, asma, stress e uma certa sensação de injustiça, tomei a decisão.
A empresa não me paga há 3 meses, apesar de toda a boa vontade. Aguentei 4 ou 5 situações limite deste estilo. Em nome de um projecto. Em nome de acreditar. Em nome da camaradagem.
Vi uma colega sair. Vi as perspectivas aumentarem no dia seguinte a quase se perderem.
Aguentei tensão. Sobrevivi a "crises internas". Ganhei ânimo onde nem imagina que pudesse ir buscar. Animei o outro quando precisava de ser animada e fui animada pelo chefe também lutador mas cansado.

Fomos dois durantes uns meses largos. Bem vestidos para as reuniões com clientes. Impecavelmente lindos quando o salário nem sempre dava para pagar o estacionamento mais perto da empresa que visitávamos.
Partilhámos todos os trocos possíveis para o vício comum: as doses de cafeína.
Divertimo-nos a gozar com a desgraça. Rimo-nos dela como desalmados.

Improvisei recursos para dar formações low-cost. Aprendi a fazer bastante bom do bastante medíocre. Transformamos restos em recursos. Remediamos em vários aspectos, em vários dias.
Unimo-nos quando tudo parecia descambar.
Emprestei dinheiro à empresa. Aceitei ser paga mal e tarde.

Por um Projecto. Por este projecto.
Que mal, pouco a pouco, se foi endireitando.
Mas o cansaço venceu. No momento em que sinto que mereço mais.

E é magnificamente bom ser capaz de ver com claridade a situação que foi névoa durante os últimos meses de esforço/dedicação extremos e remuneração escassa. Simplesmente quero mais!
Quero que o meu esforço repercuta em vantagens reais. Quero sentir que a diferença se marca não só a nivel do que ofereço, mas sim também ao nivel do que obtenho disso.
Deixo o altruísmo e dou uma espreitadela de olhos ao umbigo e..... HEY! Gosto do umbigo!
Quero fazê-lo maior. Ver-lhe os cantos, conhecer-lhe outros prismas.
Dedico-me a mim.

E ontem, depois de noites mal dormidas e uns kilómetros de lágrimas que não sabiam que nome tinham, a resposta apareceu e foi clara: deixar o projecto pela pessoa. Fica a Laboralia. Vai a profissional Edite.
Pus os quilos de investimento sem contrapartidas numa mochila, junto com o ânimo que fiz crescer a cada dia pela ideia de negócio, ao lado das ideias geniais que coleccionei ao longo deste ano e meio, para fazer crescer a todos os niveis este projecto que se tornou de dois.
Custou dizer "chega". Custou dizer "não posso mais". Mas não posso. Porque nao quero e porque sei que mereço mais. Melhor.

E depois da decisão tomada, o alívio tomou conta. Parto para o nada. Para o vazio.
Para os dias sem marcação. Para um número mais do (alto) desemprego espanhol. Para a crise. para a incerteza. Para o "está dificil".
E que BEM, que me sabe!
Sei que normalmente só conheço coisas novas que me são melhores quando sou capaz de largar coisas "comodamente fáceis". Aqui está.
Largo o trabalho certo (de pagamento incerto:)), pela incerteza dos dias. E alegro-me. Alegro-me mesmo.
Porque sei que os dias terão tédio, desamparo, incerteza, angústias. Mas serão os dias que escolhi. E sei, porque sei!, que terão mais Edite consciente do caminho que escolheu.
E escolho o caminho de decidir o que quero fazer. O caminho de procurar dar o melhor, romper ideias, fazer surgir novas soluciones e novos productos, marcar a diferença, dar excelência, ser BOA. Avançar no que quero, recompensada da forma que considero justa, válida para o que invisto.

A data da partida ainda não é certa, mas em menos de um mês estarei fora. Estarei desamparadamente amparada por mim.
E sabe maravilhosamente bem estar livre para fazer qualquer coisa e tudo.

Tenho na incerteza, a certeza de que vou estar bem.
O futuro começa aqui.
Em mim!

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