Ando a formar em inglês básico gente de uma enorme empresa musicipal de BSM há um mês e há ainda um mês pela frente. São mais de 370 pessoas, o que favorece a diversidade.
Nessa "diversidade" encontrei um senhor de mais de 55 anos que tinha estado a fazer uns anos de cursos de inglês e que chegou à 2ª jornada de formação bem "contento" porque tinha escrito uma coisa que queria que eu visse.E saca deste texto, passado a computador e tudo!
Sem palavras.....
"For my beautiful teacher
Was upon a day a beautiful teacher arrived to b.s.m., she was a very nice girl. She wasn’t tall, but his good character and her friendlyness attract all our attention.
She speaks and teachs like a play on words and all the people was happy to meet her. Really I thing that will be a anpleasant to lost her and no look she never again.
I remember you for ever"
Não posso descrever a minha cara quando li o texto, mas posso dizer que quanse me saía o café pelo nariz quando li a parte do "she wasn't tall, but..."!
:)
Monday, July 27, 2009
Sunday, July 26, 2009
Coisas, sei lá.
Prazeres.
Creio que a costela hedonista deve ter absorvido o que os centimetros de altura não fizeram.
Amo os prazeres, disfruto-os, aprecio-os.
O momento em que nos damos conta que acordamos. E em que ganhámos a consciência de que de repente, já não estamos a dormir, já podemos ouvir o mundo lá fora,estar sensíveis ao cão que ladra, ao ranger da porta, ao calor na perna.
Esse momento em que nos damos conta de que já não dormimos possui para mim esse sereno click entre o sono e a vigília que me faz sentir viva.
Também gosto de lavar pratos, depois de um jantar com muita gente. Gosto desse momento de estar de frente para a janela, de costas para toda a cozinha, a deixar que as mãos mergulhadas em água corrente dancem coordenadas dando voltas aos objectos que vão ganhando novas cores, ou perdendo os tons de tomate, de molho de soja, de azeite,...
As esplanadas com folhas caídas em também esse ponto despertador da costela hedónica. Um pouco de sombra, uma cadeira cómoda, uma mesa diante e um corpo sentado, inclinado, relaxado. À frente dos olhos e por todo o lado, cores, pessoas, formas, cheiros. E o corpo, ali parado, ganha a disponibilidade de aboserver o que rodeia, de despertar para o que envolve.
Falar com gente de vidas recheadas ou de perspectivas simples. Ouvir comentários que eu não faria, seguir raciocínios onde nunca cheguei, ver coisas sobre prismas que nunca me ocorreram... Ouvir palavras articuladas de uma forma própria e particular. Ouvir vidas que não são a minha.
Comer pedaços de natureza. Gosto das saladas de verão articuladas com improvisação e que conjugam fruta simples com ingredientes de frigorífico. DO prazer da ingestão de algo que se acaba de criar. De me sentir alimentada pelas minhas mãos e com a criatividade possível.
De sentir o cheiro do próprio cabelo depois de lavado. E virar-me e sentir o aroma que desprende e ficar ali, a evocar imagens que esse cheiro trás.
De dançar, de imaginar-me a dançar, de pensar em dançar. De saber que o corpo se pode mover livre por entre música imaginária cujas notas pedem um movimento especñifico.
De sentir ar na cara quando pedalo em bibicleta vermelha. De sentir que a paisagem do lado passa mais depressa do que quando vou a pé e de ter os fios de cabelos puxados para trás de forma automática.
De deslizar ao som do zec zec zec dos pedais e de permitir que entre mais ar de cada vez que inspiro.
Dos reencontros com pessoas de quem gosto. Do sopapo no coração quando os olhos lhes param em cima. De saudar-las e sentir a presença ali mesmo e de rever instantaneamente o porquê de me sentir bem por voltar a vê-las.
De sair de um dia de trabalho bem feito. De voar com a sensação de ser capaz, com alguma aventura ocorrida, com o prazer de ser válida para uma tarefa em que confiam em mim e de a tentar superar a cada passo. De me sentir peça de engrenagem num processo que flui sozinho. E da relação que se cria com as pessoas com quem trabalho, seja entre a equipa, seja com os destinatário.
Sobretudo de estar viva. De acordar a cada dia, mais ou menos cansada, mais ou menos ensonada, e de saber que vou mover-me até poder despertar o corpo. Que o movimento fluirá até que o coloque de pé e comece a deslizar pelos espaços, à velocidade da vontade.
De poder ficar imóvil e sentir que a vida continua, que a cabeça alberga energia.
E de desfrutar das pequenas insignificâncias altamente significantes que me rodeiam e que rodeio.
Acabei de acordar, será por isso.
Tuesday, July 21, 2009
A Casa - detalles vistos de fora.
A casa é a mesma de desde há ano e meio.
Mas tanta coisa mudou, desde que entrei com as tralhas de encher um quarto pequeno...
Depois da passagem e mudança de tanta gente, de tantas cores, de tantos arranjos, a única coisa que muda são as visitas. As visitas, os visitantes, que não páram de vir e encher o nosso espaço de forma tão boa.
Um dia destes, um dos visitantes viu-nos (e registou) o espaço assim.
Sunday, July 19, 2009
Quotidianidades
Beata andava de câmara atrás.
Tal como conheceu a Agnieska: detrás dos valentes centímetros de objectiva que a separam do mundo "para a proteger".
E com essa câmara registou os momentos quotidianos da personagem Edite.
Vi as fotos que me haviam deixado no PC só depois de partirem do quarto que ocuparam na nossa casa branca. E pensei que é mais que nada, isto, que faz os dias.
A ida ao mercado à fruta, à lavandaria self service para lavar o edredón de inverno, ao sapateiro para arranjar as sandálias, ao café para acordar, ao bar de sempre para socializar, à farmácia para comprar elixir para o aparelho, ....
São estas, afinal, as coisas que compõem vida.
Os pequenos passos dos dias, as pequenas coisas dos passos.
É neles que me crio, é neles que se cria o personagem.
E quis deixar também expostas as visões da Beata, que se escondeu detrás da câmara para me mostrar.
International dinners and gathering
Encontros.
Encontros entre pessoas que são amigas, que se conhecem apenas ou que se fazem amigas que se reconhecerão dentro de anos.
Nas imagens um jantar mais, desses que juntam a portuguesa+ uma italiana+ um austríaco + duas polacas amigas de uma amiga.
Ou uma cerveja noturna ou um café matutino ou um pastel de nata verpertino com as polacas animadas, de máquina en riste todo o tempo, no seu afã fotográfico sobre a quotidianidade.
Fora destas imagens fica o almoço com o Sr. Carlos, que vende lenços por Gracia.
Fica o comentário/conselho do senhor da praça de Sant Felipe Neri.
Fica a saudação com o senhor vagabundo que toma a cerveja sem dentes.
Fica a noite com a amiga catalã que não se vê há mais de meio ano e nos nota as diferenças.
Fica fora o encontro, os encontros cibernéticos intensos que se estabelecem e enchem páginas e sons distantes.
Mas cada encontro enche os dias quentes de forma quente.
Monday, July 13, 2009
O trabalho...
Trabalho…
Há mais de duas semanas que a vida própria se mistura e se faz de trabalho. Exceptuando os dois días de fim de semana interesante, não tenho feito muito mais que trabalhar.
Mas não, não me queixo. Nem aos outros nem a mim.
Porque apesar das 15 horas diárias dos últimos 3 dias, há energía no ar.
Reuniões bem levadas, asuntos bem geridos, grupos bem conduzidos.
Adoro o trabalho, caramba! Adoro trabalhar numa empresa há 9 meses e estar a meio de um segundo projecto gigantesco.
Adoro sentir que nem o idioma, nem a politiquice me afastam de empresas catalãs gigantes e que de repente a nossa pequeña Laboralia está à frente de projectos em grande, com dimensões brutais e repercussões interessantes.
Neste momento estou a formar 359 trabalhadores e 16 Encarregados de uma empresa municipal de 1200 pessoas. Cada dia me passam pelas cadeiras de varias salas entre 17 e 35 pessoas. A cada grupo recebo com o entusiasmo do primeiro dia. A cada grupo dou os exemplos do primeiro dia, com a ligeireza dos encontros em primeira mão.
Sabe bem estar assim com gente. Criar encontros, partilhar momentos de passar a outros, conteúdos.
E rir-me ao ver-me reflectida nos vidros da sala, assim pequena e com um acessório colorido, muitas vezes de feltro, a lembrar que gosto de dançar de pés descalços e não só de ser a super profissional.
Gosto de tudo isso.
Gosto de ir a ler no metro e sair a respirar a manhã das 7 horas. Gosto do cabelo molhado nas costas ao descer a rua ao lado de casa. Gosto do sabor do café retirado da máquina da sala de formação. E de rever a companheira de trabalho que a cada manhã está fresca. E de conhecer cada novo participante que entra de olho arregalado.
Gosto do prazer do trabalho. E de descubrir os meus limites laborais a cada dia e dar-lhes resposta.
Há mais de duas semanas que a vida própria se mistura e se faz de trabalho. Exceptuando os dois días de fim de semana interesante, não tenho feito muito mais que trabalhar.
Mas não, não me queixo. Nem aos outros nem a mim.
Porque apesar das 15 horas diárias dos últimos 3 dias, há energía no ar.
Reuniões bem levadas, asuntos bem geridos, grupos bem conduzidos.
Adoro o trabalho, caramba! Adoro trabalhar numa empresa há 9 meses e estar a meio de um segundo projecto gigantesco.
Adoro sentir que nem o idioma, nem a politiquice me afastam de empresas catalãs gigantes e que de repente a nossa pequeña Laboralia está à frente de projectos em grande, com dimensões brutais e repercussões interessantes.
Neste momento estou a formar 359 trabalhadores e 16 Encarregados de uma empresa municipal de 1200 pessoas. Cada dia me passam pelas cadeiras de varias salas entre 17 e 35 pessoas. A cada grupo recebo com o entusiasmo do primeiro dia. A cada grupo dou os exemplos do primeiro dia, com a ligeireza dos encontros em primeira mão.
Sabe bem estar assim com gente. Criar encontros, partilhar momentos de passar a outros, conteúdos.
E rir-me ao ver-me reflectida nos vidros da sala, assim pequena e com um acessório colorido, muitas vezes de feltro, a lembrar que gosto de dançar de pés descalços e não só de ser a super profissional.
Gosto de tudo isso.
Gosto de ir a ler no metro e sair a respirar a manhã das 7 horas. Gosto do cabelo molhado nas costas ao descer a rua ao lado de casa. Gosto do sabor do café retirado da máquina da sala de formação. E de rever a companheira de trabalho que a cada manhã está fresca. E de conhecer cada novo participante que entra de olho arregalado.
Gosto do prazer do trabalho. E de descubrir os meus limites laborais a cada dia e dar-lhes resposta.
Escrever...
Escrever…
Escrever tornou-se necessidade.
Quando chego a casa sinto a falta de teclas nos dedos. Sinto as ideias a fluirem enquanto lavo os pratos ou cozinho ou arrumo a roupa espalhada ou escolho o detergente novo.
Escrever tornou-se numa higiene mental e num alinhar de ideias necessário.
Há mais de dois anos e meio que me relaxo aquí, nesta Edite em Barcelona. E com a amiga-supervisora que me lê as palavras além dos gestos. E agora com o jornalista grego que me conhece os passos. Às vezes relaxo-me nas palavras de folhas de papel do caderno-viajante. E outras em missivas de papel e caneta dirigidas às almas de quem gosto.
Mas o escrever está sempre.
Sinto-lhe o vazio quando o tempo me afasta desse deslindar de ideias, deste deslizar por letras palavrentas.
Escrever dá-me paz e põe-me orden no espírito inquieto.
É uma forma de rever e reavivar sensações. De criar oásis de reflexão e criação de imagens.
Sinto necessidade de mais e de coisa nenhuma, quando escrevo palavras com sentidos próprios. Sinto que se completa um círculo qualquer que me permite respirar de uma forma mais atinada e certeira.
Nesse movimento misturo palavras em várias línguas. Há coisas que sei sentir melhor em espanhol. Outras que me definirão sempre em português. Outras coisas que me saem espontaneamente em inglês. E às vezes uma pincelada de editês acabado de inventar ou advindo das misturas em que me movo.
Escrever é uma forma de sentir.
Escrever tornou-se necessidade.
Quando chego a casa sinto a falta de teclas nos dedos. Sinto as ideias a fluirem enquanto lavo os pratos ou cozinho ou arrumo a roupa espalhada ou escolho o detergente novo.
Escrever tornou-se numa higiene mental e num alinhar de ideias necessário.
Há mais de dois anos e meio que me relaxo aquí, nesta Edite em Barcelona. E com a amiga-supervisora que me lê as palavras além dos gestos. E agora com o jornalista grego que me conhece os passos. Às vezes relaxo-me nas palavras de folhas de papel do caderno-viajante. E outras em missivas de papel e caneta dirigidas às almas de quem gosto.
Mas o escrever está sempre.
Sinto-lhe o vazio quando o tempo me afasta desse deslindar de ideias, deste deslizar por letras palavrentas.
Escrever dá-me paz e põe-me orden no espírito inquieto.
É uma forma de rever e reavivar sensações. De criar oásis de reflexão e criação de imagens.
Sinto necessidade de mais e de coisa nenhuma, quando escrevo palavras com sentidos próprios. Sinto que se completa um círculo qualquer que me permite respirar de uma forma mais atinada e certeira.
Nesse movimento misturo palavras em várias línguas. Há coisas que sei sentir melhor em espanhol. Outras que me definirão sempre em português. Outras coisas que me saem espontaneamente em inglês. E às vezes uma pincelada de editês acabado de inventar ou advindo das misturas em que me movo.
Escrever é uma forma de sentir.
Friday, July 10, 2009
Ao fundo...
Ao fundo.
Ao fundo vou e me quero meter.
Levo dentro a inquietude da sede de mais.
Rodopio quando me agarram até conseguir escapar-me de tentáculos que me espremem, ainda que só as ideias.
Sou mais pequena do que gostaría e conheço menos do que me apetecía conhecer.
Sei menos do que quero saber e fico aquem do que há para inspirar do mundo inteiro.
Sinto o desejo de sair das cascas e de voar mais pelo universo cósmico.
Mas aprecio as pequenas coisas que me passam pela vida e dou-lhes a importância que têm as vivências transformadoras.
Leio o blog do Saramago e imagino-me com ele numa tumbona, na ilha negra em que vive, essa Lanzarote misteriosa, a ouvir falar, ouvir falar... Para receber pontos e riscas (de cabelo) de vista e pensar sobre eles.
Leio as notícias e apetece-me estar no Iraque, no Afganistão, (nas Honduras não, que me deu demasiado medo), perto de intrépidos estrondos que fazem sucumbir vidas e esperanças. Para saber como é estar ali. Para sentir de perto o que se sente e partilhar sentimentos que não conheço de perto.
Imagino as bases onde se constroem foguqtões e shuttles e transporto-me às contas minuciosas de quem os prepara, aos cálculos infinitesimais de quem os programa. Também gostava de estar nesse campo de concentração mental e sentir que os detalhes determinam.
Gostava de estar numa sala de uma escola de dança em Cuba e ver o suor de esforço e repetição dos grandes bailarinos que crescem.
Gostava de estar num edifício de escritórios do Japão e sentir o fervor workaholico das centenas de pessoas que se entregam sem se lembrarem de si.
E de ver furar a terra seca de algum lugar de África ou de ver abrir um lenço de cores para meter um menino dentro e atirá-lo para as costas-canguru da mãe que segue a sua vida com a cria atrás.
Gostava de ver as meninas loiras do Leblon brasileiro, de bundona grande a beberem a água de um côco, e de subir às favelas entremeadas de antenas parabólicas e seringas perdidas e balas pelo chão e olhos grandes e mortes-sem-querer.
Gostava de ver a casa dos Kirshner argentinos e de lhes ouvir as conversas nocturnas, depois de terem sexo e antes de se levantarem para o país.
Gostava de estar sentada ao fundo da mesa do Obama equanto ele toma o pequeno almoço com a Blackberry ao lado, um beijo nas bochechas das filhas e um país para mudar nas costas.
Gostava de ouvir uma canção Mariachi entre as cores das vestimentas e a fome nas barrigas ou uma digestão de guacamole.
Gostava de estar na mala de alguns portugueses que se vão para ser mais coisas fora do país e que deixam para trás os bolinhos de bacalhau, o mimo da mãe e as tunas académicas.
Estar no Vietname e ouvir gente que tem na memória relatos da guerra e os conta e chora com eles ou mostra uma raiva contida ou já tão mastigada que se foi.
E em Chernobil e pensar num cogumelo venenoso a deixar cães sem vida pelo asfalto que se desfaz e desesperança em futuro, passado, presente.
Gostava de estar em Timor e ver o país crescer e coçar as picadelas de mosquitos de clima húmido entre gente que passou o massacre do cemitérios de Santa Cruz e que viveu o antes e o depois de Timor Lorosai.
E de ver cangurus descendentes dos do tempo em que a Austrália não era mais que um país-prisão de uns ingleses marados.
De estar na casa de uma família sueca que acaba de perder um filho com um tiro na cabeça porque lhe faltava calor. E de estar no seu sofá da sala a ver o "E agora?", passando por cima do "e porquê?".
É claro que gosto da minha vida cómoda, do meu dia a dia tranquilo, da minha segurança, da minha paz, da minha barriga cheia e do aburguesamento confortável do sofá de pele amarelo, dos candeeiros a meia luz e do solinho a entrar pela janela.
Está claro que usufruo do meu bairro sereno e amigável, da música imensa a que tenho acesso, dos amigos cuidadores que se preocupam, do trabalho que me relaxa e me anima.
Está claro que aproveito esta serenidade previligiada para conhecer países viajando a todo o gás sempre que me apetece, que saio com todo o tipo de pessoas, as conheço e me dou a conhecer.
Está claro que aprecio cada bocado de coisa boa que meto à boca pela manhã na cozinha branca e retirada do armário cheio.
E está claro que aprecio ter momentos para me sentar num jardim a ler um livro patético de um catalão qualquer que me relaxa os neurónios, e poder escolher o café onde me delicio pela manhã, e ter boas conversas com quem me cruzo pela vida, aqui ou fora, ao vivo ou por chat, e de usufruir do prazer serenamente excitante do sexo, ou de comprar uns brincos novos porque são bonitos ou de passar para saudar o senhor Serafim sapateiro que me faz sentir em casa, ou de ligar à mãe que adoro e me dá paz e âncora.
Está claro que aprecio tudo isso e lhe dou todo o magnífico valor que tem.
Mas na curiosidade de saber o tudo que há, sinto uma sensação de pequenez por não poder chegar a saber mais. De não chegar a conhecer mais. De não poder entender mais.
Será que cada um nasce com o tudo que pode viver?
Será que há limites para a capacidade de sentir, e de presenciar e de experimentar em primeira pessoa?
Há espaço em mim para mais e curiosidade pelo mais que existe na bola redonda.
Tenho sede de sair da concha cómoda e ir saber como é o equilíbrio instável, ainda que saiba que sempre gostaría de voltar à casca quentinha.
Mas também sei que as cascas quentinhas, às vezes sufocam e levam a banhos em lagos gelados só para poder voltar ao quente e agradável dos passos conhecidos.
Chateio com duas israelitas e uma palestitiana, relembro férias com uma croata e pergunto pelo casamento de uma polaca à sua irmã. Pisco o olho em cumplicidade a italianos amigos e recolho um livro de um amigo francês. Respondo à pergunta de um turco entre a cerveja que tomamos e rio-me das piadas da australiana, no café de tapas.
Melhorei, com uma venezuelana, a falar espanhol e aprendi-o com o amigo do peito africano.
Como qualquer coisa com a mexicana entre conversas cúmplices e vou ao cinema com a inglesa loira e divertida. Divirto-me e gozo com a americana e beijo um grego, diferente daquele outro com quem partilhei uma viagem.
Lembro-me do afegão que estava cá para curar um olho e relaciono-me com mil catalães. Mantenho e ganho novos amigos lusos. Escrevo aos amigos belgo-polacos e dou os parabéns ao brasileiro que terminou o master em Paris5.
Lembro-me das exposiçoes e do atelier do pintor argentino e da companheira de master boliviana. Penso que tenho um café pendente com a quase-médica uruguaya e recebo deliciosa resposta do director irlandês da Science Gallery.
A vida é cheia de passeios por aí, mesmo quando não saímos do café o bairro, bem sei.
Mas às vezes sabe bem desejar acrescentar algo mais a este tudo-cheio.
Ao fundo vou e me quero meter.
Levo dentro a inquietude da sede de mais.
Rodopio quando me agarram até conseguir escapar-me de tentáculos que me espremem, ainda que só as ideias.
Sou mais pequena do que gostaría e conheço menos do que me apetecía conhecer.
Sei menos do que quero saber e fico aquem do que há para inspirar do mundo inteiro.
Sinto o desejo de sair das cascas e de voar mais pelo universo cósmico.
Mas aprecio as pequenas coisas que me passam pela vida e dou-lhes a importância que têm as vivências transformadoras.
Leio o blog do Saramago e imagino-me com ele numa tumbona, na ilha negra em que vive, essa Lanzarote misteriosa, a ouvir falar, ouvir falar... Para receber pontos e riscas (de cabelo) de vista e pensar sobre eles.
Leio as notícias e apetece-me estar no Iraque, no Afganistão, (nas Honduras não, que me deu demasiado medo), perto de intrépidos estrondos que fazem sucumbir vidas e esperanças. Para saber como é estar ali. Para sentir de perto o que se sente e partilhar sentimentos que não conheço de perto.
Imagino as bases onde se constroem foguqtões e shuttles e transporto-me às contas minuciosas de quem os prepara, aos cálculos infinitesimais de quem os programa. Também gostava de estar nesse campo de concentração mental e sentir que os detalhes determinam.
Gostava de estar numa sala de uma escola de dança em Cuba e ver o suor de esforço e repetição dos grandes bailarinos que crescem.
Gostava de estar num edifício de escritórios do Japão e sentir o fervor workaholico das centenas de pessoas que se entregam sem se lembrarem de si.
E de ver furar a terra seca de algum lugar de África ou de ver abrir um lenço de cores para meter um menino dentro e atirá-lo para as costas-canguru da mãe que segue a sua vida com a cria atrás.
Gostava de ver as meninas loiras do Leblon brasileiro, de bundona grande a beberem a água de um côco, e de subir às favelas entremeadas de antenas parabólicas e seringas perdidas e balas pelo chão e olhos grandes e mortes-sem-querer.
Gostava de ver a casa dos Kirshner argentinos e de lhes ouvir as conversas nocturnas, depois de terem sexo e antes de se levantarem para o país.
Gostava de estar sentada ao fundo da mesa do Obama equanto ele toma o pequeno almoço com a Blackberry ao lado, um beijo nas bochechas das filhas e um país para mudar nas costas.
Gostava de ouvir uma canção Mariachi entre as cores das vestimentas e a fome nas barrigas ou uma digestão de guacamole.
Gostava de estar na mala de alguns portugueses que se vão para ser mais coisas fora do país e que deixam para trás os bolinhos de bacalhau, o mimo da mãe e as tunas académicas.
Estar no Vietname e ouvir gente que tem na memória relatos da guerra e os conta e chora com eles ou mostra uma raiva contida ou já tão mastigada que se foi.
E em Chernobil e pensar num cogumelo venenoso a deixar cães sem vida pelo asfalto que se desfaz e desesperança em futuro, passado, presente.
Gostava de estar em Timor e ver o país crescer e coçar as picadelas de mosquitos de clima húmido entre gente que passou o massacre do cemitérios de Santa Cruz e que viveu o antes e o depois de Timor Lorosai.
E de ver cangurus descendentes dos do tempo em que a Austrália não era mais que um país-prisão de uns ingleses marados.
De estar na casa de uma família sueca que acaba de perder um filho com um tiro na cabeça porque lhe faltava calor. E de estar no seu sofá da sala a ver o "E agora?", passando por cima do "e porquê?".
É claro que gosto da minha vida cómoda, do meu dia a dia tranquilo, da minha segurança, da minha paz, da minha barriga cheia e do aburguesamento confortável do sofá de pele amarelo, dos candeeiros a meia luz e do solinho a entrar pela janela.
Está claro que usufruo do meu bairro sereno e amigável, da música imensa a que tenho acesso, dos amigos cuidadores que se preocupam, do trabalho que me relaxa e me anima.
Está claro que aproveito esta serenidade previligiada para conhecer países viajando a todo o gás sempre que me apetece, que saio com todo o tipo de pessoas, as conheço e me dou a conhecer.
Está claro que aprecio cada bocado de coisa boa que meto à boca pela manhã na cozinha branca e retirada do armário cheio.
E está claro que aprecio ter momentos para me sentar num jardim a ler um livro patético de um catalão qualquer que me relaxa os neurónios, e poder escolher o café onde me delicio pela manhã, e ter boas conversas com quem me cruzo pela vida, aqui ou fora, ao vivo ou por chat, e de usufruir do prazer serenamente excitante do sexo, ou de comprar uns brincos novos porque são bonitos ou de passar para saudar o senhor Serafim sapateiro que me faz sentir em casa, ou de ligar à mãe que adoro e me dá paz e âncora.
Está claro que aprecio tudo isso e lhe dou todo o magnífico valor que tem.
Mas na curiosidade de saber o tudo que há, sinto uma sensação de pequenez por não poder chegar a saber mais. De não chegar a conhecer mais. De não poder entender mais.
Será que cada um nasce com o tudo que pode viver?
Será que há limites para a capacidade de sentir, e de presenciar e de experimentar em primeira pessoa?
Há espaço em mim para mais e curiosidade pelo mais que existe na bola redonda.
Tenho sede de sair da concha cómoda e ir saber como é o equilíbrio instável, ainda que saiba que sempre gostaría de voltar à casca quentinha.
Mas também sei que as cascas quentinhas, às vezes sufocam e levam a banhos em lagos gelados só para poder voltar ao quente e agradável dos passos conhecidos.
Chateio com duas israelitas e uma palestitiana, relembro férias com uma croata e pergunto pelo casamento de uma polaca à sua irmã. Pisco o olho em cumplicidade a italianos amigos e recolho um livro de um amigo francês. Respondo à pergunta de um turco entre a cerveja que tomamos e rio-me das piadas da australiana, no café de tapas.
Melhorei, com uma venezuelana, a falar espanhol e aprendi-o com o amigo do peito africano.
Como qualquer coisa com a mexicana entre conversas cúmplices e vou ao cinema com a inglesa loira e divertida. Divirto-me e gozo com a americana e beijo um grego, diferente daquele outro com quem partilhei uma viagem.
Lembro-me do afegão que estava cá para curar um olho e relaciono-me com mil catalães. Mantenho e ganho novos amigos lusos. Escrevo aos amigos belgo-polacos e dou os parabéns ao brasileiro que terminou o master em Paris5.
Lembro-me das exposiçoes e do atelier do pintor argentino e da companheira de master boliviana. Penso que tenho um café pendente com a quase-médica uruguaya e recebo deliciosa resposta do director irlandês da Science Gallery.
A vida é cheia de passeios por aí, mesmo quando não saímos do café o bairro, bem sei.
Mas às vezes sabe bem desejar acrescentar algo mais a este tudo-cheio.
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inquietudes de culo-inquieto
Sunday, July 5, 2009
Encontros...
No fim de uma semana louca de início de processo de formação para 359 pessoas, que me levou horas intermináveis de preparação, respiro e muito fundo.
A formação deslizou, e com alegria, e a semana terminou em grande, com uma visita vinda de outra terra de sol.
Esteve o Lambros.
E as horas passaram num voo de coisa boa.
Entre aprendizagem de sons e letras gregas e todo o tipo de vivências que fazem com que dois dias tenham mais que muitas horas.
Sem aprofundar mais, queria só deixar-me aqui o registo deste estado de energia recuperada ajudado pelo sorriso cúmplice vindo de outra cidade que partilha o Mediterrâneo e o sol.
Καληνύχτα, que vou dormir feliz e energizada! E bem contenta, certamente.
A formação deslizou, e com alegria, e a semana terminou em grande, com uma visita vinda de outra terra de sol.
Esteve o Lambros.
E as horas passaram num voo de coisa boa.
Entre aprendizagem de sons e letras gregas e todo o tipo de vivências que fazem com que dois dias tenham mais que muitas horas.
Sem aprofundar mais, queria só deixar-me aqui o registo deste estado de energia recuperada ajudado pelo sorriso cúmplice vindo de outra cidade que partilha o Mediterrâneo e o sol.
Καληνύχτα, que vou dormir feliz e energizada! E bem contenta, certamente.
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