(Texto recuperado dois dias mais tarde)
Nestes dias em que as coisas correm bem sou assim.
Tenho sorte.
E sou-lhe profundamente agradecida. À sorte, ao cosmos, à energia cósmico-coisica, ou ao que seja que me permite aventurar-me e sobreviver feliz.
Esta aventura americana está a pouco mais de um dia de terminar. Estou sentada no Guggenheim, à espera que a chuva passe e o companheiro destes dias chegue. Conhecemo-nos no primeiro dia em que eu tentava cá chegar ao museu, acabamos a tomar café, voltamos a ver-nos no dia seguinte, cheio de mais encontros com mais pessoas, também recém conhecidas. À noite, no jantar, estávamos já 5! Desconhecidos, conhecidos de conhecidos, ou almas que se conhecem já pelo passar dos passos nas ruas partilhadas.
A verdade é que dias como o de ontem, em que à mesa do restaurante se fala em inglês com vários sotaques, em que se ri de ter a Natalie Portman na mesa do lado, a fazer charminho doce para o menino giro com quem está, em que se ri por se desconhecer o valor das moedas que se tem na mão. São momentos assim que me fazem sentir no momento certo, na hora certa.
Há cumplicidades entre as filhas de amigas, sentadas frente a frente a engendrar um bom fim para o filme da estudante de Film Making. Rompemos bloqueios criativos e rimo-nos.
Há cumplicidade entre os comentários de "tou-te a topar" do holandês novo companheiro de viagem, quando estamos a comprar CD's usados perto de Madison St.
Há cumplicidade entre nós, pessoas que estamos ali, no presente. Que não sabemos se nos voltaremos a encontrar, quando e como. Mas que estamos bem enquanto estamos.
Estes encontros de viagem fazem-me sentir que deixar-se ir vale a pena. Estar em grupo com quem apetece no momento. Seguramente que desfrutaria da companhia de um Amigo de longo tempo, de uma pessoa especial, das que já tenho. CLARO QUE SIM! Mas estes dias passados ao improviso (e ao frio, como no caso dos últimos 3, que estão um gelo!!!), sabem muito bem. Há partes de mim que saem. Livres de a prioris, de preconceitos, de pré-historias. Estou só eu, ali, no presente. E ali, no presente, invento quem quero ser entre rua e rua, entre avenida e avenida, entre café e café…
As viagens ajudam-me, definitivamente a reinventar-me, a (re)conhecer-me, a aprender a estar comigo. A querer-me e cuidar-me e mimar-me, como quando esta manhã entrei numa loja de papéis e saí com uma caixa maravilhosa cheia de postais coloridos. Um presente de mim para mim, para levar as minhas palavras a quem me quer, a quem eu quero e a mim.
Já está. Já dei graças a estar viva, a estar bem, a ter os recursos físicos que necessito para caminhar kms, para correr no meio da passadeira, para descer as escadas do metro em balanço, para entrar numa igreja devagarinho, para poder cheirar o café de Hazelnut que tomo cada manhã ao lado da Wall St “casa”, para poder fechar os olhos encostada à parede e desfrutar dos ruídos à volta, para apertar o botão da câmara que capta momentos visuais, para andar à chuva no Central Park. Porque estar vivo e bem é um luxo que aprecio muito. E me permite ser mais eu. Esta Pessolet errante, de mala na mão e olhos abertos.
Tenho tudo o que necessito na mala azul e dentro de mim. Estou em qualquer lugar.
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