Eram quase 11 da noite. Na sala, a Inés e eu enfrentávamos o ecrã de computadores ao som de música baixinha. As notas cortam-se pelo "BONC! aiaiaia". Olhámos uma para a outra e vamos a voar para a varanda da frente. Lá em baixo uma pessoa deitada no chão, consciente e só com lesão na anca. Um carro amassado. O vizinho do 2º tinha voado pla janela.
Ninguém gritou. Ninguém se amontoou no jovem atordoado. Não foi preciso dizer não, não lhe toquem no pescoço.
Mas o caso parecia também não tocar ninguém em particular. A família chega, conversa, faz as diligências e o jovem Roger vai-se na ambulância sem pressas.
Depois de toda a história, depois das declarações aos Mossos de Esquadra e conversas com familiares que fecham aquecedores e luzes acessas do piso deixado pla janela, voltámos a casa com os pés frios e uma sensação de incredulidade.
Dia seguinte: um casal toca à porta. São os pais do Roger, que não conhecemos. Vêm com a sobriedade vista no dia anterior. Uma impassividade estranha. Contam como está o Roger. Agradecem o nosso apoio. Contam que o filho estava a passar desde há um ano uma depressão em solidão. E que se tentou matar ao voar pelo 2º andar.
É o vizinho do 2º. Com quem partilho o primeiro lanço de escadas há mais de um ano. O dia em que cruzamos mais palavras? No dia em que ele está no chão, com sangue a escorrer-lhe da mão e a perguntar-me se a ambulância demorava.
São as relações de cidade grande? É a efemeridade dos olás não aprofundados de vão de escada? É o giro rodado do pandemónio amorfo que nos inunda os sentidos?
Pergunto-me porque não posso deixar de o fazer, o que é que falha quando alguém que se sente tão mal não recorre, porque nem conhece, às vizinhas frescas e jovens de dois andares abaixo, para um chá à luz de conversa.
Podíamos voar todos juntos, ao som de palavras, chás, gargalhadas e outras coisas que nos fazem leves o suficiente para não partirmos a anca ao cair.
Thursday, January 15, 2009
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