Sunday, January 18, 2009

Atrás da Catedral

Atrás da Catedral há um largo pequeno.
Uma rua, lugar de passagem, um átrio, um espaço entre paredes de pedra clara.
O espaço atrás da Catedral é isto e mais. Tem eco, magia, acolhe e esconde uma acústica única, descoberta por vários tipos de músicos que lá se instalam em momentos de inspiração ou vontade de trocos.
Na última passagem estavam dois homens. Com casacos apertados até cima, cachecol e um gorro. Como música como pano de fundo.
Os passos de caminho foram interrompidos pela voz de um deles, que desata notas de tenor e nos colam ao chão. Fortes, firmes, claras. Que chegam às gárgulas dos sitios mais altos e lhes desprendem seguramente uma pedrinha ou outra.
Aos mortais que passamos, cola-nos mais. Ao chão, à porta de madeira onde nos encostamos a ouvir, àquela voz mágica que nos leva a cenários de ópera.
São melodias de arias conhecidas que se deixam ecoar naquele espaço. Quem passa pára, detém-se por força das notas, da voz, da presença daquelas figuras que cantam na noite fria, atrás da Catedral.
As palmas finais saem mais espontâneas do que num espetáctulo numa grande sala. Saem ao som da incredulidade daqueles momentos. Acompanham os comentários do senhor velho de barbas grandes, que enrola charros apoiado na própria guitarra e acena com os braços ao som dos acordes, como maestro anarca: "DE PUTA MADRE!", sai-lhe numa. "QUE TE CAGAS!", sai-lhe noutra. É sábio, o velho. Acho que todos pensamos o mesmo.
O maestro de sonhos segue caminho depois do charro fumado. Mas leva as notas que continuam a ecoar no espaço. Quem fica mantém a delícia nos sentidos. Há qualquer coisa de mágico que se passa ali, naqueles instantes em que o mundo lá fora se esquece e nos embalam aquelas duas figuras cantantes.
A pele arrepia-se do frio e do momento, a performance termina e o passeio continua, impregnado de qualquer coisa realmente boa, desses momentos de sensibilidade melódica atrás da Catedral de Barcelona.

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