Hoje está uma ventania "daquelas".
Tudo a ir pelo ar e rajadas que arregalam os olhos.
E nada como dias comuns com vento para se passarem coisas.
Hoje constatei uma coisa engraçada, de que já começava a suspeitar: os catalães são assim pró friinho! Fechados, secos e pouco transparentes.
Boa gente, sem dúvida, mas imersos no seu mundo.
A que vem a descoberta? Ao aumento de relações entre pessoas de cá, não estabelecidas a priori com um vínculo afectivo.
Depois do primeiro meio ano de conhecimento de gente dentro dos âmbitos protegidos (master, TCI), e da quantidade incrível de outros estrangeiros com quem inevitavelmente se cruza e a quem, inevitavelmente também, nos mostramos e vemos mais disponíveis, veio a fase de asentar raíz. E nesse momento veio, por primeira vez, essa sensação. A de estar entre pessoas fechadas, embebidas no próprio mundo já criado, mas pouco abertas a grandes entradas de externos.
Comenteio como uma amiga (catalã) que me confirmou o mesmo.
Entretanto a sensação voltou a dissipiar-se, fruto das relações especiais que fui criando com gente especial, e que me deixou entrar nos seus mundos de forma doce. E assim cresceram amizades bonitas e duradouras com gente catalã. E essa primeira sensação ficou adormecida até agora.
Agora, que começo a ter que me relacionar com autóctones por razões de trabalho e outros temas que não implicam proximidade.
Como hoje pela manhã, em que metade do tecto do prédio voou!
E em que subi pela primeira vez as escadas dos 4 andares para chegar à vizinha com chaves para o telhado instável.
Sequinha, durinha, como um croisant de queijo passado 2 dias.
Chego a casa e perante o comentário com a amiga catalã que partilha as vivências e impressões, essa é confirmada: sim, custa entrar, custa, Edite.
Que diferença entre a dicotomia amável ou não amável da alma lusa, que não fecha portas ao novo tão assim....
Sei que por palavras a sensação perde força. Mas não posso deixar de descrever esta estranheza do povo desta cidade que é invadida por novas gentes e culturas a cada passo. Surpreende encontrar casas com tranca detrás da cidade cosmopolita.
Ou não!
Ou talvez seja assim mesmo a construcção de uma cidade em que os estrangeiros construímos a alegria aberta e em que os autóctones seguem a sua vida sincopada...
Divagações antropolóligas aparte, acabei por conhecer os restantes vizinhos do prédio e de saber que temos um mini terraço comum!!!!!!
Uma coisa genialmente fabulosa onde o vento se impõe ainda mais, onde se vê todo o bairro, a Sagrada Família, Montjuic e quase toda a cidade desde uma perspectiva incrível!
Foi um achado magnífico, onde já me imagino as noites de primavera e verão... Entre conversas de amigos, fotografias e copos de vinho ao crepúsculo!....
Uma coisa realmente preciosa. Um pouco de cimento onde posso pisar sem sair de casa e que fica mais perto do céu de Barcelona.
E à descida, devolvo as chaves à vizinha velhotinha do 1º, que se ri muito, nos apresenta ao marido e nos dá um sorriso quente; aviso a vizinha de baixo que temos preparadas cartas para o recuperante vizinho do 2º que voou, e que nos convida a ver a sua magnífica casa de artista e com quem acabamos por trocar números de telefone.
E penso que talvez aquela sensação de fechado, de imerso e limitado contacto não seja tão assim nem com toda a gente.
Conheci os vizinhos catalães, vi-lhes bons sorrisos e ganhei um terraço pequenino, num dia em que o vento nos levou parte da clarabóia do telhado.
Saturday, January 24, 2009
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3 comments:
não tiro valor à tua sensação. mas gostava de te dizer que é comum a quem sai e vai para outro lado. porque quando estamos fora, tudo nos é novo e estranho. e a quem lá vive e é de lá e pertence, os autóctones, as coisas não têm essa cor ingénua e quase aparvalhada. quem disse que a alma lusa é mais acolhedora que as outras? ou menos? eu cá acho que pessoas especiais há-as em todas as nações e povos, e que relações especiais é que nos abrem as portas das casas dos outros. e sim, cá em portugal também não queremos sempre abrir a porta às vizinhas "frescas", e não queremos sempre conversar no elevador, e a maioria das pessoas não diz bom dia ao motorista do autocarro, e não se está sempre disponível para tomar chá ou dançar. é tudo igual em todo o lado - o que é preciso é um pretexto para começar, mais nada.
É verdade que as pessoas especiais estão em todo o lado. Disso não duvido e partilho. Assim como gente sem cor está por toda a parte.
Entendo também que quem vive o dia a dia não se veste da cor do "novo", do "desconhecido".
Mas não concordo que seja tudo igual em todo o lado.
Não é tudo igual em todo o lado.
A objectividade pode raiar parececenças. Mas o que se sente e vive com um povo não é o mesmo que com outro.
Porque eu também já fui autóctone!:) E partilhei vida com outros "autóctones. E sei que a diferença se sente e muito.
Mais: se fosse tudo igual em todo o lado, não haveria antropólogos, só criaturas ensimesmadas a tentar perceber umbigos:)
Eu acredito nas diferenças e sei que de fora se veêm essas diferenças. Por algo será que os povos que visitam o pais luso levam na mala, além do Galo de Barcelos, a calidez do povo, bem distintas a outros tipos de calidez.
E por algo será que inclusivamente alguns dos catales que andaram por outros mundos, se assumam como fechados e menos abertos que outras paisagens.
Creio nas diferenças.
E nas pessoas especiais que se sorbessaiem apesar ou com elas.
num sei. ficávamos aqui uma eternidade a discutir isto :)
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