Falamos muito.
Falamos muito, falamos, emitimos, soltamos, atiramos, falamos muito.
Falamos sobre o que fazemos, fizemos, queremos fazer.
Falamos sobre o que somos, o que fomos e o que seremos.
Dedicamos à emissão a energia da palavra, da mensagem, do contacto.
Como se tivéssemos que passar ao(s) outro(s) o Eu presente, passado e futuro para que nos façam um lugar.
Cada vez mais, a uma frase de um "Hoje fui dar um passeio", se segue um "Ah sim? E passeaste onde?"
Cada vez mais ao "Eu hoje comi um gelado", vem, por parte do outro um "Ah! Eu também. Mas não sou grande fã de gelados porque...bla bla bla bla...."
E a conversa segue do outro lado, já esquecido do começo.
E as conversas seguem-se, em diálogos de surdos-mudos que se auto-ouvem falar, sem querer saber mais do outro lado.
A mim cansa-me relacionar-me só para ouvir.
Está bem que sou psicóloga, que gosto especialmente do prazer de conhecer o Outro, de senti-lo, de ouvi-lo. Mas também tenho coisas que dizer. Também quero espaço para me mostrar.
E no hoje-em-dia, esse espaço tão efémero, sinto a falta do encontro. Do encontro entre o "eu conto, tu escutas". Do "eu conto e tu queres saber mais".
Perguntar e interessar é bom, quando a coisa flui recíproca.
Mas nos encontros semi-vazios em que dois egos se soltam e desfazem cada um o seu novelo, só consigo encontrar aburrimento, cansaço e fastio.
Sinto a falta de conversas com princípio e fim em que no meio ouve um meio.
Em que os recheios se fazem de partilha.
Em que aos ouvidos do outro eu lanço pegadas que ele segue e em que sigo as suas ideias lançadas em forma de palavras devolvidas.
Cansa-me o Ego enorme.
Cansa-me o desfiar de curriculums andantes.
Cansa-me as conversas centradas que não podem descentrar.
Começo a entender o esteriótipo feminino das mulheres que querem companhias que as escutem. Talvez seja só uma coisa de ser mulher. Ou de ser exigente. Ou de querer para o meu ego a mesma atenção que sinto que dispenso, sem ter que a disputar.
Mas sem muita análise pelo meio, sei que quero conversas que fluam e que conheço cada vez menos gente que saiba ouvir e comunicar no verdadeiro sentido. Recebendo e dando. Ouvindo e falando. Enroscando as palavras recebidas nas emitidas e criando, com isso, uma dança com sentido.
Thursday, April 23, 2009
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4 comments:
entendo-te... muito!
ias dizendo?
:), Jane:)
a dança... a dança...
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