É curioso escrever justamente agora, quando num espaço-quintal amigo acabo de ler algo dentro nesta linha.
Escrevo a história que recebi da Mari e do Manolo, há 2 dias.
Eu descia a Calle Aribau com Aragón. Ia de tacão cómodo, passo acelerado rumo à Pl. Catalunya, onde me esperaria uma amiga Uruguaya que não via há uns tempos.
Na esquina estava sentado esse casal, sobre os 40's. Com um olhar firme, presente. Tinham na mão um cartaz manuscrito que contava em poucas palavras a história e os desejos. Ficaram sem casa e necessitam ajuda ou trabalho para seguir adiante.
As palavras do cartaz podiam ser plágio de tantas outras espalhadas por infinitas cidades, em infinitos idiomas. Mas aquelas caras, e sobretudo a presença daquela casal sentado era dali. Era daquele espaço, entre a Aragón com a Aribau. Àquela hora.
Eu voltei atrás e apresentei-me. E perguntei-lhe quem era.
Chama-se Mari e fala de uma forma aberta, clara e sincera.
Com a despretensão de ser bonita, mas a ser-lo.
Com uns brincos de ouro em forma de coração, pequeninos, pegados às orelhas, uma trança presa à frente com um elástico vermelho e a pele que conhece frio de rua.
O Manolo anda pelos latões. Quando aparece quase não olha à figura de botas pretas de tacão que está ajoelhado à frente da irmã, a falar como uma conhecida de todas as tardes, a cenar a cabeça com a história, a rir-se da forma como a conversa flui entre duas mulheres que se acabam de conhecer.
Mas apresento-me e o Manolo mostra o sorriso de senhor-bebé que o faz estar mais ali. A postura presente naqueles dois irmãos faz-me sentir entre conhecidos de há muito.
E ouço a forma como a Mari me comenta a forma como ela, há um ano, antes de ficar sem casa, olhava para as pessoas a quem agora substitui nos degraus da casa. A forma com certo desdém, com certo "e tu porque não vais trabalhar?" com que refilava internamente com quem via a ir dormir ao aeroporto a cada noite, como fazem os dois, agora.
E dá-se as respostas com a sua história.
Conta como com o dinheiro que conseguem, da recolha de metais do lixo pagam uma noite num quarto de pensão para se ducharem e "relaxarem um bocado".
A Mari é daquelas pessoas que me impressionam pela presença.
E o Manolo, que parecia ausente e metido no latão com forma de quem não está, impacta-me com a delicadeza de maneiras com quem me agradece o a "merienda" à qual os convido.
A Mari e o Manolo lembra-me do patético que é o mundo fácil no qual às vezes me movo.
Quando me esqueço do quente que é o abraço, de usufruir os privilégios aos que sou convidada nos meus dias de existência cómoda.
Mas também me lembra estados de desprotecção em que me senti, já.
E faz-me lembrar do que é estar "sentado em degraus", a ver quem passa, fora de uma realidade mais fluída à qual me apetece pertencer.
Estar fora das roldanas é lixado.
Digo eu, que nunca estive num fora tão desprotegido, diz a Mari que me leva mais anos de adianto na vida e a vê desde há um ano, nos olhares perdidos e fugazes da gente que passa.
À Mari vou levar uma écharpe bonita para quando for procurar trabalho, com o seu "como se chama aquilo, Manolo?.. Com a fotografia e a morada?...O Currilium?..." .
Mas a mim quero tirar écharpes que não me fazem falta. E acessórios que não me fazem falta.
E pretensões, que me sobram....
O "Outro Lado", como diz a Mari, é lixado.
Friday, April 10, 2009
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