Sunday, May 17, 2009

Barcelona - a Cidade Peter Pan

Aqui há tempos ouvir, sistematizado, aquilo que já tinha pensado algumas vezes. Barcelona como cidade Peter Pan.
Como cidade onde as coisas passam velozmente, onde não se dorme de aborrecimento, onde o estímulo espreita nas esquinas mais improváveis, onde se encontra tudo o que se procura.

Em Barcelona a gente é jovem.
Há ofertas a todos os níveis, a todas as horas, nos mais difentes lugares.
Concertos de música clássica em lugares deslumbrantes; exposições inovadoras em sítios de vanguarda; actividades alternativas em espaços surpreendentes; uma oferta de música ao vivo de todos os estilos e em todo estilo de lugar.

E há pessoas a viverem tudo isso.
Semi-cerro os olhos à faixa etária dos 25 aos 35. E vejo hippyes, punks, betos, intelectuais, e todas as conjugações de categorias possíveis, desde os kumbaya que se metem em tudo o que implique andar descalço, comer verde e defender animais, até aos hippy-pijos que compram roupa na Gracia e no Born e se preparam durante horas em casa para alcançar o visual de "vesti o primeiro que apareceu".
Estas casinhas de catetegorias não são minhas. Uso-as também (afinal o raio da mania de pôr tudo em casinhas está-me entranhado nos poros, por mais que não goste), mas são coisas que se ouve por aí.
Aos outros Peter Pan.
Às outras pessoas nesta idade que ainda não se casaram, ainda não têm filhos, não pagam hipoteca nem seguro de carro (que não têm).
Somos pessoas que partilhamos casa. Que não temos horários fixos nem actividades fechadas.
Somos pessoas a quem as viagens nos animam. Gente que passeia pela praia de bicicleta, ou corre pelas avenidas mais largas, ou patina ao fim da tarde.
Gente que está disponível para cerveja ao fim da tarde de terça feira.
Gente que pica algo fora sem planos prévios. Gente que vai a bares ouvir música ao vivo com uns amigos que apareceram.
Gente que trabalha e faz disso apenas uma das ocupações da vida.
Com relações inúmeras que se criam do nada, se mantêm com uma cola invisível e que não deixam demasaido lastro quando desaparecem. Porque outras, novas e fescas, virão rapidamente.

Os Peter Pan queremos viver.
Respirar Barcelona.
Aproveitar-nos dela e conhecer-lhes as entranhas, sugar-lhe o sangue fresco e a pele viva.
Não apostamos por compromissos de maior. Vivemos na facilidade da mudança e aceitamo-la como condição imprescindível para seguir na inércia da cidade.
Aceitamos cozinhas mais ou menos. Suportamos casas de banho com mil frascos de gel de banho. Vemos as casas sem cortinas como normais.
Vivemos esta sensação de festa permanente, de facilidade de encontros fugazes, de oportunidades cambiantes.

Nas conversas não aparecem planos a longo prazo. Os buracos de actividade nos CV's não assustam, antes motivam. A aquisição de bens é uma despreocupação e faz-se substituir por um bom disfrutar do quotidiano.

Conhece-se muita gente. Conhecem-se de perto culturas, formas de ser e de estar. Vê-se o distinto mais de perto e convive-se com ele na padaria ou no café com wi-fi.

Pensava, há dias, que daqui a uns anos a passagem por Barcelona fará parte de uma geração. Tal como o Maio de 68 ou o louco Woodstock marcou quem lá esteve, os Peter Pan de Barcelona seremos uma raça qualquer.
Uma raça que não comprou casa antes dos 30's. Que não casou antes dos 30's. Que quase não viu televisão e que conheceu coisas.
Que viveu no fervilhar.
E penso se saberemos aproveitar estes conteúdos imensos que se pöem à nossa volta.
Se saberemos crescer integrando tudo.
Se poderemos desenvolver os passos livres que pudemos dar.

Diz-se que há um período de tempo limite para viver em BCN.
Dizem os mais veteranos que turbelinho da cidade um dia cansa. Um dia já se viram todos os museus, já se foi a todos os mercados. Já se comeu em todos os restaurantes e se beberam as melhores cervejas.
Que um dia, o facto de haver sempre coisas a passar se integra de tal forma que cansa mais do que entusiasma.
E que nessa altura o cérebro pensa em voltar a voar, sair daqui, procurar mais.
Ainda não sei para onde vão esses seres cansados de BCN. Não sei se se cansam e voltam à casa mãe, ou se continuam na busca insesante de estímulo, de matéria, de energia.
Não sei se algum dia crescem, esses Peter Pans que somos.
De momento, tudo o que podemos fazer será, talvez, ir embalados no vento mediterrânico que nos passa na cara juntamente com os pólens que voam das árvores.
E viver Barcelona com a juventude no corpo e na cabeça, sem preocupações de amanhã...

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