Tuesday, August 18, 2009

O acto da escrita....

(Estava de férias e este foi um despertar registado por quem partilhava comigo os primeiros raios de sol da casa tranquila que nos acolhia...)

Sinto a falta deste momento em que as ideias se articulam em forma de palavras ordenadas.
Gosto da caneta que desliza em papeis e gosto das mãos no computador.
Caio de sono mas volto aqui. Ainda que seja para escrever sobre o prazer de escrever.

A verdade é que ao longo do dia me saem de dentro conjuntos de ideias que se alinham para que as aponte de forma ordenada, em pequenos conjuntos que ganhem sentido.
A eferfescência quotidiana acaba por não dar espaço a essa apresentação cuidada e muitas das coisas que se alinham para a formatura, acabam perdidas num cosmos de papagaios de papel pendurados em linhas de electricidade.

As poucas que chegam com vida à calma necessária para o registro ganham mais cor, mais sentido, mais durabilidade.

O acto de escrita permite qualquer coisa de mágico, como se se imortalizassem pensamentos fugazes e os pudessemos colocar à disposição para ruminações posteriores....
Gosto disso.

Cartas...


Há tanto sempre por dizer...
A principio porque a surpresa invade as letras e tudo é motivo para partilha.
Sensações, novidades, impressões,...
Tudo voa em forma de papel.
Com o tempo a novidade perfila-se.
O novo está mais dentro que fora.
São estados, metamorfoses, processos, os que dão forma às palavras.

Em todos os momentos, presente a vontade, o prazer, o gosto pela partilha.
Uma partilha que se faz em forma de letras e imagens. Às vezes cores, às vezes cheiros quando são transportáveis.
Entre fotos, postais e descripções, vou enviando de mim, e recebendo, em forma de carta-postal, pedaços de mundos que se criam.
E a caixa colorida, na estante, a rebentar, acumula o ânimo recebido ao longo de todo este tempo... Em alguns casos só o selo, ou o papel que embrulhava um presente bonito, ou o envelope colorido.
Noutros, todo o conteúdo devidamente esmiuçado, guardado também na memória.

E há palavras minhas espalhadas por outras caixas coloridas de outras casas com estantes.
Sabe bem esta partilha construída com o tempo, em forma de palavras e imagens que perfazem uma banda desenhada baseada em factos reais.
Tão reais como a vivència que desliza no tempo...

Monday, August 17, 2009

Pri(e)..../vilégios/ocupações.

Hoje trabalho de tarde. Por isso passei-me a manhã em casa, a ordenar, relaxar e preparar a semana entrante. Despreocupadamente tranquila.

Saí para as compras diárias e ao parar para tomar o cortado e ler o jornal, deixei-me entrar numa janela diferente. Passei do plano umbigal ao outro. Ao que se abre diante dos nosso dedos ao folhear notícias de outros mundos.

E pensei que as minhas preocupações se transformam em privilégios, quando as vejo nos referentes comparativos macro.

Eu preocupo-me/ocupo-me em pensar se comprar frango ou perú, para tentar o mais saudável. Penso na salada de tomate que tenho que preparar para complementar a saúde. No tipo de pão que escolho para ser menos pesado. Preocupo-me por passar para o outro lado da rua porque está sol e levo congelados no saco.
Preocupo-me por ter que lavar lençois para os convidados/amigos desejados, quase a chegar.
Ocupo-me com a quantidade de sal que pus nos bifes que preparei para o almoço e com o facto de não ter cuecas da cor da pele para levar com roupa branca.
Ocupa-me a mente a escolha das melhores palavras para falar de sentimentos com quem não partilha os meus idiomas base.
Ocupo-me a pensar que ainda não vi a exposição de fotografia que está no MACBA e pela qual tenho tanta curiosidade.
Preocupo-me com os erros que dou cada vez mais ao escrever português.
E com a forma como raio poderei arranjar o mail do Saramago para lhe dizer que o vou visitar à ilha negra onde ele mora.
Preocupo-me por estar quase nos 30 e ainda não ter ido a todas as capitais europeias que queria. E porque os iogurtes que estão no frigorífico estão a passar de prazo.
Preocupo-me porque tenho dado forte e feio no queijo Emmental que me compraram e porque uma amiga me falou em "casamento" e não me explicou mais nada e eu continuo à espera.
Preocupo-me porque ainda não preparei o poster para o congresso de Pisa nem sei nada sobre as viagens para Itália.
Preocupo-me porque não pude estar com a couchsurfer da Dinamarca e a outra de Inglaterra, tal como me tinham pedido.
Preocupo-me porque não sei se hoje vou, afinal, poder estar com a Asia, amiga polaca que cá está porque saio tarde do trabalho.

Preocupo-me, ocupo-me, penso.... São coisas que me ocupam o cérebro, de todas as formas.
São as migalhas comezinhas que pairam na mesa que me ponho para viver.

E migalhas que se fazem pó ao ler o jornal e saber que no mundo, lá fora, sempre longe, há migalhas em forma de pão inteiro.

De repente voo para os USA, para os escritórios dos super empresários que foram aumentados para que não abandonem agora o navio na subida. E em que no Afganistão, ao mesmo tempo, os putos brincam com papagaios de papel frágeis e improvisados com sacos de plástico, contra um Corão que os impede de "gastar o tempo" com isso.
As caras de alegria de uns e nas caras de alegria dos outros. Uns a brincar com plástico voador, outros a brincar com todo o mundo nas mãos.

Também voo para o gelo das montanhas onde morre/morreu sozinho o Óscar que se partiu ao cair e aí ficou. E para o desconforto do seu companheiro, impossibilitado de salvá-lo mesmo movendo o mundo.
E para o calor da casa/prisão da Aung San Suu Ky, com as liberdades pessoais cortadas por acreditar e lutar por liberdades alheias.

E voo pela casa do Rajoy que luta com o Zapatero e pelos tectos da Ferreira Leite que luta com o Sócrates.

E voo para longe dos que comentam chauvinistamente as notícias do Público on line e dos ADN online y de tantos outros onlines lidos por chauvinistas de vistas curtas e opiniões afiadas e malévolas.

Voo pela selva Amazónica que morre a cada dia sem que eu a veja existir nem lhe sinta o cheiro. E pela Patagónia, o Perito Moreno, que se derrete sem que eu lhes chegue a ver os azuis mais intensos.

Voo para os laboratorios que avançam científicamente e para os estúdios de gravação onde se registram novos sons que ouvirei mesmo sem querer.

A verdade é que, desde a minha pequenez equilibrada, desde o pedaço de nicho-rocha em que me encontro, suspiro tranquila a cada noite, mesmo tendo em frente centos de pessoas a passar e a rir e a falar e música em concerto até às 3:30 da manhã pelas festas da Grácia. Cá dentro eu durmo tranquila, relaxada, esquecida do que impede dormir a outros.

A inquietude é segura: estou a salvo.
Sei que os equilibrios são instáveis e que as pedras melhores apoiadas também cedem quando por baixo as roem algumas espécies de lagarto.
Mas para já estou a salvo. A salvo do resto do mundo.
A interagir com as suas partes mais seguras, mais luminosas, mais brilhantes e construtivas.

Sei que a instabilidade dos equilibrios se encarregará de proporcionar novas inquietações, e tempos poderá haver em que a salada de tomate não me ocupe a cabeça, nem o frango mais fresco nem a falta de jornal para ler.

Enquanto o oásis se apresenta, eu desfruto dele e lanço-lhe uma ode. Para que deslize o tempo que queira, que eu com ele irei.

Respiro este oásis como se fosse a primeira vez que o vejo, ouço, sinto.
E fecho os olhos para o registar tal como é, para sempre: calmo, refrescante, alegre, estimulante, maravilhosamente claro.

Quando, e se, um dia, as tormentas se apresentarem, este oásis será um oásis. Será um porto ao que voltar e recordar o bom que é preocupar-se pela frescura dos tomates, pela música que vai entrar a seguir e pela velocidade a que os pés possam acompanhar o ritmo da alegria que lhes paira em cima.

Quando o mundo cair em cima, que não seja pequeno. Que caia um mundo sério, real, duro mas duro por si mesmo, não pela cor com que se pintem os fantasmas.
Medo do que meta medo, só.

Hoje, que me preocupo por ter tempo para ler na viagem de metro para o trabalho um pouco mais do livro/oráculo que me maravilha nos últimos dias ("A insustentável leveza do ser"), respiro tranquila e fico contente por já ter lavado os pratos e ter lençois brancos lavados na cama.
E sou feliz por isso.

O que tenho feito?

Cozinhado perdidamente. Para dois, para duas, para grupos que se constroem, ou só para mim....
Por supuesto, tomado cerveja (nem que seja destas naturais, género sumo fermentado), em sítios bonitos e frescos.
Trabalhado bastante!....
Ido às minhas livrarias preferidas! (esta é uma de fotos e comics que me encanta!)
Dormido sestas sempre que posso (ando rebentada de cansaço e é verão!)

Tuesday, August 11, 2009

EDITE@CADAQUÉS

E neste paraíso de livros trouxe comigo "A Insustentável Leveza do Ser" e uns quantos mais por comprar...
Fiquei a ver mar e mar...
E andei com ar de alucino com o sol.
Contente, por supuesto, com o lenço azul a proteger do sol e dar (ainda) mais cor aos dias.
Em tudo....
Numa manhã de pequeno-almoço delicioso, com vistas para o corre-corre da cidade viva.
Diante da soberba casa de design, num fim de tarde particular.
A DANÇAR, que mais?!
De pernas para o ar num mundo inventado à medida.
Com os cabelos de "Lídia", a personagem presente....
Assim foi loucamente Cadaqués!

Cadaqués, pedaço de paraíso.










Numa escapada de menos de três dias visitei o lugar mágico que tinha pendente desde há tempos: Cadaqués.
Eramos dois à aventura: um grego e uma portuguesa na mais fantástica paisagem da Costa Brava, Catalunya.

A vista desde as encostas, os relevos dos caminhos, as casas, os barcos, o barulho das folhas das árvores coladas perto do mar, o som da arte a viver nas ruas, a fazer-se sentir nos detalhes.
Tanto para ver.

As casas coloridas e as ruas de pedra estreitas e luminosas, cheias de segredos escondidos para desvendar. A loja de barcos do Kostas, meio grego meio catalão; a galeria do Oscar Amorós um brilhante fotógrafo que nos fez as maravilhas entre imagens e histórias; o canto colorido da menina que vende lenços...

Quando decidimos aproveitar esta sexta-feira de oásis sem trabalho, nem sabíamos onde ir. Só sabíamos que a mochila levaria coisas básicas e iria leve, com o saco-cama atado. Cadaqués surgiu da inspiração e a preparação não demorou muito: um convite de CS lançado e alguns hoteis vistos, todos eles ocupados.

E este foi o princípio de uma grandesíssimo conjunto de horas! A magia da cidade encantou, com o seu design por todo o lado, a sua abertura, o fascínio do design, o Dali e a Gala quase a respirarem a cada esquina...
Estivemos sentados a ouvir o vento, numa ponta do que nos parecia a ilha. Estivemos sentados na casa do Dali e Gala a sentir os ventos frescos de princío de noite e a imaginar as suas noites de então, naquele porto protegido de tudo... Aquele porto tão mágico...
E estivemos a desfrutar do casal de CS que afinal nos albergou e nos tornou a viagem ainda mais apetecível!

Três dias improvisados cheios história construída e boa...

Monday, August 10, 2009

Inconsciente português?

Que raio de coisa...

esta noite, sem mais nem para quê, sonhei com o Raúl Solnado.
Aparecia-me no sonho em forma de um avô qualquer, de um personagem que era actor do onírico geral desta sonhadora acordada. Mas enquanto dormia.
Estes dias não vi TV, não falei com portugueses nem vi o Publico online como acabo de fazer agora.
E agora que o leio, vejo que este avô que me apareceu esta noite, sem que eu tenha a mínima ideia de como, se foi.
E que só poderá aparecer em referências ou sonhos.
A sério que fiqei incomodada.
Existe um inconsciente colectivo português, uma espécie de Telejornal telepático que recebe as ondas de onde estamos/estivemos sintonizados?

A sério que fiquei boquiaberta.

Que descase, pois, este senhor dos desenhos animados e séries de quando as horas de sono duravam mais e se podia sonhar mais....