Hoje trabalho de tarde. Por isso passei-me a manhã em casa, a ordenar, relaxar e preparar a semana entrante. Despreocupadamente tranquila.
Saí para as compras diárias e ao parar para tomar o cortado e ler o jornal, deixei-me entrar numa janela diferente. Passei do plano umbigal ao outro. Ao que se abre diante dos nosso dedos ao folhear notícias de outros mundos.
E pensei que as minhas preocupações se transformam em privilégios, quando as vejo nos referentes comparativos macro.
Eu preocupo-me/ocupo-me em pensar se comprar frango ou perú, para tentar o mais saudável. Penso na salada de tomate que tenho que preparar para complementar a saúde. No tipo de pão que escolho para ser menos pesado. Preocupo-me por passar para o outro lado da rua porque está sol e levo congelados no saco.
Preocupo-me por ter que lavar lençois para os convidados/amigos desejados, quase a chegar.
Ocupo-me com a quantidade de sal que pus nos bifes que preparei para o almoço e com o facto de não ter cuecas da cor da pele para levar com roupa branca.
Ocupa-me a mente a escolha das melhores palavras para falar de sentimentos com quem não partilha os meus idiomas base.
Ocupo-me a pensar que ainda não vi a exposição de fotografia que está no MACBA e pela qual tenho tanta curiosidade.
Preocupo-me com os erros que dou cada vez mais ao escrever português.
E com a forma como raio poderei arranjar o mail do Saramago para lhe dizer que o vou visitar à ilha negra onde ele mora.
Preocupo-me por estar quase nos 30 e ainda não ter ido a todas as capitais europeias que queria. E porque os iogurtes que estão no frigorífico estão a passar de prazo.
Preocupo-me porque tenho dado forte e feio no queijo Emmental que me compraram e porque uma amiga me falou em "casamento" e não me explicou mais nada e eu continuo à espera.
Preocupo-me porque ainda não preparei o poster para o congresso de Pisa nem sei nada sobre as viagens para Itália.
Preocupo-me porque não pude estar com a couchsurfer da Dinamarca e a outra de Inglaterra, tal como me tinham pedido.
Preocupo-me porque não sei se hoje vou, afinal, poder estar com a Asia, amiga polaca que cá está porque saio tarde do trabalho.
Preocupo-me, ocupo-me, penso.... São coisas que me ocupam o cérebro, de todas as formas.
São as migalhas comezinhas que pairam na mesa que me ponho para viver.
E migalhas que se fazem pó ao ler o jornal e saber que no mundo, lá fora, sempre longe, há migalhas em forma de pão inteiro.
De repente voo para os USA, para os escritórios dos super empresários que foram aumentados para que não abandonem agora o navio na subida. E em que no Afganistão, ao mesmo tempo, os putos brincam com papagaios de papel frágeis e improvisados com sacos de plástico, contra um Corão que os impede de "gastar o tempo" com isso.
As caras de alegria de uns e nas caras de alegria dos outros. Uns a brincar com plástico voador, outros a brincar com todo o mundo nas mãos.
Também voo para o gelo das montanhas onde morre/morreu sozinho o Óscar que se partiu ao cair e aí ficou. E para o desconforto do seu companheiro, impossibilitado de salvá-lo mesmo movendo o mundo.
E para o calor da casa/prisão da Aung San Suu Ky, com as liberdades pessoais cortadas por acreditar e lutar por liberdades alheias.
E voo pela casa do Rajoy que luta com o Zapatero e pelos tectos da Ferreira Leite que luta com o Sócrates.
E voo para longe dos que comentam chauvinistamente as notícias do Público on line e dos ADN online y de tantos outros onlines lidos por chauvinistas de vistas curtas e opiniões afiadas e malévolas.
Voo pela selva Amazónica que morre a cada dia sem que eu a veja existir nem lhe sinta o cheiro. E pela Patagónia, o Perito Moreno, que se derrete sem que eu lhes chegue a ver os azuis mais intensos.
Voo para os laboratorios que avançam científicamente e para os estúdios de gravação onde se registram novos sons que ouvirei mesmo sem querer.
A verdade é que, desde a minha pequenez equilibrada, desde o pedaço de nicho-rocha em que me encontro, suspiro tranquila a cada noite, mesmo tendo em frente centos de pessoas a passar e a rir e a falar e música em concerto até às 3:30 da manhã pelas festas da Grácia. Cá dentro eu durmo tranquila, relaxada, esquecida do que impede dormir a outros.
A inquietude é segura: estou a salvo.
Sei que os equilibrios são instáveis e que as pedras melhores apoiadas também cedem quando por baixo as roem algumas espécies de lagarto.
Mas para já estou a salvo. A salvo do resto do mundo.
A interagir com as suas partes mais seguras, mais luminosas, mais brilhantes e construtivas.
Sei que a instabilidade dos equilibrios se encarregará de proporcionar novas inquietações, e tempos poderá haver em que a salada de tomate não me ocupe a cabeça, nem o frango mais fresco nem a falta de jornal para ler.
Enquanto o oásis se apresenta, eu desfruto dele e lanço-lhe uma ode. Para que deslize o tempo que queira, que eu com ele irei.
Respiro este oásis como se fosse a primeira vez que o vejo, ouço, sinto.
E fecho os olhos para o registar tal como é, para sempre: calmo, refrescante, alegre, estimulante, maravilhosamente claro.
Quando, e se, um dia, as tormentas se apresentarem, este oásis será um oásis. Será um porto ao que voltar e recordar o bom que é preocupar-se pela frescura dos tomates, pela música que vai entrar a seguir e pela velocidade a que os pés possam acompanhar o ritmo da alegria que lhes paira em cima.
Quando o mundo cair em cima, que não seja pequeno. Que caia um mundo sério, real, duro mas duro por si mesmo, não pela cor com que se pintem os fantasmas.
Medo do que meta medo, só.
Hoje, que me preocupo por ter tempo para ler na viagem de metro para o trabalho um pouco mais do livro/oráculo que me maravilha nos últimos dias ("A insustentável leveza do ser"), respiro tranquila e fico contente por já ter lavado os pratos e ter lençois brancos lavados na cama.
E sou feliz por isso.
Monday, August 17, 2009
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1 comment:
"A inquietude é segura: estou a salvo."
Penso nisto todos os dias, e em como quero também visitar o nosso José na sua ilha negra e bela e sorrir-lhe nos olhos todo o amor que tenho por todas as palavras que escreve.
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