Saturday, June 19, 2010

O meu Tango e a vida

O Tango tem para mim uma lição implícita. Vai muito além das análises que façamos nas aulas. Nas aulas importam os passos e o contacto que se estabelece com quem se dança.
Mas quando saio da Carrer Mare de Déu dels Desamparats, não me são só os pés que me vão mais sensíveis. O mundo tem tons diferentes, durante o caminho que faço até casa.
Porque no Tango aprendo a pensar como mulher e como homem, sem que me estejam a ensinar mais do que os passos que se espera de um e outro.

Nas aulas, esporadicamente faltam pessoas para os pares. Então os professores invertem-nos os papeis. E é assim que às vezes passo a hora e meia a fazer de homem, empoleirada nas nada firmes sandálias de tacão agulha.

Adoro quando no Tango os passos saem bem e posso fazer de mulher, leve e solta entre os braços que me levam e me movem o corpo ao som de acordes definidos. E rodopio nos oitos atrás e à frente e nos passos a contra-tempo. E encosto a minha cabeça no peito à minha frente, ou fixo os olhos por instantes, no corpo que guia, ou sinto o peito que coordena tudo conectado profundamente.

Mas também quando faço de homem, de forma inesperada. E de repente estou hiper consciente dos meus passos, e de mostrar à mulher que tenho diante o caminho que seguiremos. E a fazê-la entender com o meu tronco onde vamos e com os meus pés onde a quero. E consciente das ligações de passos e destes com o ritmo que ouvimos.

E de repente o tango é uma lição de vida que os 100 euros de 3 em 3 meses não pagam.
De repente o Tango ensina a levar e deixar-se levar. A aproveitar a energia conductora para aprender rápido os passos que fazem os homens. A aproveitar a fluidez ágil com que aprendemos a seguir as propostas e a imprimir-lhes pontos pessoais, que se espera das mulheres.

Deixar de lado a rigidez de querer mandar quando não toca, ou o desejo de ser levado quando não é o momento.
Creio que na vida, como nas nossas aulas de Tango, o poder só tem piada quando se pode desfrutar-lo fluindo. Quando aprendo a conduzir sem que se me note e a seguir sem pesar.
Quando intuo o caminho nos passos do outro e decido se o sigo ou se faço um "adorno" à minha maneira.
Quando ser capaz de seguir de olhos fechados se torna muito, mas muito mais do que um cego a deixar-se levar. Torna-se numa prova de confiança e numa comunicação que excedem a dominância.
Aprendo a deixar-me levada sem ser levada por ninguém. E aprendo a levar, quando os papéis se invertem, sem forçar, sem marcar, sem obrigar. Aprendo a imprimir subtilmente os passos de uma proposta que só será cumprida a dois.

Depois de 9 meses a dançar Tango, reforço a sensação que tive no primeiro dia, ao partilhar com a Soledad, iniciadora nos primeiros passos neste mundo, o engraçado que era reaprender os papéis de género nesta coisa do "tango". Que deixar-se levar não retirava à mulher, a sua força. E que levar, pelo homem, ia muito mais além de saber o que queria fazer. Era importante mostrar um caminho que ambos aceitassem partilhar e que quisessem desenhar juntos, com passos às vezes iguais e às vezes complementares. E às vezes, ser rodopiado sem sair do lugar, ou ter uma perna agarrada sem esperar. E aguentar. E seguir. E fluir entre as notas de Milonga ou Tango que se sentem, sem perder a classe e a postura de presença exigida.

Penso que o Tango, esta dança de sedução e suor, imprime ritmos distintos nas percepções dos "abraços" que estabelemos na vida.

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