Acordei e peguei na primeira revista espalhada pela casa.
Fala de viagens, só de viagens.
E a esta hora da manhã entraram-me pelos olhos brincos enormes pendurados de orelhas de outra cor. E caras de meninas com mãos de mulher. E pescadores de mãos gretadas e gente em oração vestida de muitas cores.
E de repente sinto-me estranha, nesta casa de paredes brancas, com luz da manhã a entrar, a ponto de preparar como pequeno almoço aquilo que me apetecer e a sentir aquela homeostasia tão perfeita de sem frio e sem calor, com o corpo livre meio destapado, ágil, moreno, fresco.
Isto é o equilíbrio. Dentro de nada vou sair à rua, onde não tenho medo de nada e onde posso aceder à maior parte das coisas que vejo e desejo.
Onde vou ver coisas bonitas e onde conversarei com pessoas diferentes sobre grandes questões ou sobre os pólens que diminuiram desde a chuvada de Domingo.
Deve ser a isto que se chama paz.
E não deixo de pensar no longe que isto está de quase todo o resto.
O resto... Há tanto resto, longe desta paz.
Ontem lia que nas culturas em que as pessoas que têm que passar largos períodos de tempo à espera de coisas básicas, como nas filas de racionamento de comida ou em questões burocráticas exageradas, perdem a capacidade de "fluir". E como nessa, em tantas outras situações, nas quais a liberdade é tolhida ou em que a saúde peligra, ou em que a segurança não é uma coisa básica e certa.
E, caramba, só me apetece fechar os olhos e agradecer. Agradecer tanto, muito, muito, por poder ter este oásis de paz dentro de mim e à minha volta.
Por, a única coisa que ter que saber lidar serem os meus infernos pessoais, bem apaziguados já, e ter tempo para pensar na escolha dos brincos que ponho a cada manhã.
Porque imagino - e não posso fazer mais do que isso, porque nunca vivi na pele - os infernos externos que rodeiem outras realidades.
Voo para as histórias que contava o líder de uma tribo Masai, aqui há tempos em Barcelona, sobre o passeio das crianças da sua tribo até à escola, a pé, durando mais do que 2 horas e com atenção a certos animais selvagens, não vá a ser que um Gnú lhes chinche o c*.
Voo para as últimas notícias em águas internacionais em que pessoas são mortas e sequestradas quando levam ajuda humanitária para outro lugar que não deve saber o que é um passeio assim, porque sim, a olhar para as casas bonitas.
Voo para os lugares inóspitos de América Central em que o deserto é terra de ninguém e em que um carro pode desaparecer porque sim.
Sinto-me num canto de luz, protegido, solenemente pacífico, harmonioso dentro do seu caos pessoal.
E sinto a obrigação positiva de usufruir tudo isto. Sinto-me na obrigação de limitar ao máximo as queixas comezinhas e na obrigatoriedade de ir cada dia com os olhos postos no belo.
Sinto-me na obrigação de prestar homenagem ao meu corpo funcionante com o qual faço o que quero.
Sinto-me cheia. E no coração de um lugar de liberdade, que quero saber aproveitar, desfrutar, amar e sentir.
Quero sentir muito esta paz. Não só pela beleza contida nesta paz, em si mesma, mas pela comparação deste estado com tantos outros, que nos forçam a ser outras coisas, nem sempre mais agradáveis.
Sobretudo, e se fosse capaz de resumir bem as coisas como realmente as sinto era isto que diria, tenho consciência de que tenho à volta tudo para ser estupendamente feliz.
Que tenho à volta tudo o que me permite sentir asas a cada manhã. E voar, voar muito, rir como quando éramos pequeninos e acabávamos a escola e podíamos brincar, com um pão com queijo na mão. Porque se é feliz e se está bem!
E, se algum dia, as condições que me envolvem mudarem, e eu passar a ter que gastar horas em coisas que agora são tão naturais como esticar o braço, ou pagar por coisas às quais agora não dou valor, espero lembrar-me dos dias de hoje.
Em que tudo é fácil e para ser feliz só temos de estar para aí virados.
Não sei que força cósmica me fez nascer aqui, neste canto de paz em que até me posso preocupar se a pintura da sala está riscada num cantinho, mas agradeço-lhe a sorte. E espero ser capaz de ser flexível o suficiente para viver o que venha sempre com a alegria que agora encontro só por estar viva.
Páro para dizer, para me escrever que me sinto bem. Bem, bem, bem.
Que me sinto bonita na minha pele tostadinha pelos primeiros raios de sol, que cheiro bem pelos duches de água tépida e corrente que tomo e pelos creminhos que ponho. Que me sinto bonita nas roupas que me embrulham e nos breloques com que me enfeito.
Que adoro descer as escadas que dão para a rua e sentir a rua, as pessoas que vão sem olhar para trás.
Que adoro a saúde que me habita e me faz poder inspirar cada cheiro e que me deixa ver tudo o que me enche.
Que adoro a vista da minha janela da sala e a tranquilidade que ela emana.
Que me sinto mesmo bem por poder escolher cada um dos meus passos e sentir-me em todas as formas.
Abraço a vida, porque tenho tempo, disponibilidade, condições, possibilidade e recursos para isso.
É o mínimo que posso fazer: ser FELIZ!
Tuesday, June 8, 2010
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1 comment:
e esse mínimo é tão, mas tão mais além! Que gosto ler tanto fôlego!!! Abraço essa paz!
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