Monday, May 21, 2007

Dlim... Dlom/ Dlim... Dlom... (balanço)

Hoje terminou oficialmente o processo de t-group que se viveu desde o dia 8 de Janeiro deste ano. Foram 4,5 meses de intensa actividade em grupo, uma semana a observar e registar e na outra a vivê-lo.
Passou-se de tudo. Como em qualquer processo de t-group, como em qualquer grupo que nos dermos ao trabalho (ou prazer) de analizar.
Durante este tempo foi, para mim, um processo de vivência a todos os níveis: pude surpreender-me, chatear-me, guardar choros de horas, irritar-me, aborrecer-me, intrigar-me, reflectir, entusiasmar-me, espreitar, desiludir e iludir-me, sentir tudo tantas e tantas vezes...
E hoje, com a análise e devolução do que viu o grupo externo que acompanhou todas as sessões, caí finalmente na percepção do quase tudo que isto foi. (O tudo ficará para ser digerido ao longo de meses, de anos, da vida...). Estes meses foram uma das experiências mais intensas e fortes que já vivi. Ainda que diluído no tempo, e sem muitas vezes a noção da importância de certas coisas, hoje, ao ver tudo junto e espremido, percebi o trabalhão que fizemos, o trabalhão que eu fiz.
Para quem não está sintonizado com estas coisas e com esta linguagem, ou nem sequer enquadrado no que é esta história de t-group e dos seus silêncios obrigatórios, dos seus segredos internos, dos seus meandros subtis, pode parecer estranho. Mas ainda assim, um dos melhores comentários que ouvi de gente de fora, foi a comparação deste t-group com o fight club! :) A diferença é que não lutávamos com os punhos e sim com o corpo e a cabeça, todos, ainda que não nos tocássemos...
O que eu quero dizer(-me) é o "valeu a pena"! Valeram a pena as noites sem dormir, a angústia entre duas semanas, os "digo ou não digo?", os "que faço, que penso, que digo, que sinto?" Valeram a pena. Para ver-me hoje à lupa, com os meus mais 15 companheiros de 1º ano, de t-group, de experiência, à luz de outros olhos.
A maneira como passo o que vivo, o que se vê desde fora e como, o que aprendi, o que me falta aprender... E é tanto. Mas tanto. Foi tanto o que trouxe para casa para mastigar...
É um Master, bem sei. Mas não é só um Master. É a oportunidade que se tem para se ver coisas que se passam no dia-a-dia a outras luzes (e sons, e cheiros, e cores, e....).
Hoje vim para casa animada. Percebi mais possibilidades de gente que há, mais diferentes maneiras de se ser, de estar... Vinha no metro a sentir-me incrivelmente situada. Como se toda a diversidade, da qual eu como estrangeira também faço parte, fosse um só cenário, como se tudo fizesse sentido.
Vim para casa a sentir-me bem pela diversidade. A agradecer-me por ter dado o passo e ter chegado a esta experiência, da qual não me dou conta todos os dias, da qual às vezes me chateio, ma canso, me tudo, mas que agora considero que valeu a pena!
Caramba! 4,5 meses a viver com quem não conhecia, com as nacionalidaes mais diferentes possíveis, a ouvir histórias que nunca imaginei ao lado de outra que também já vivi mas noutro continente. A semelhança do diferente. A proximidade do distante. Acima de tudo a dita diversidade, essa diversidade de que me dou conta ao despedir-me na faculdade das amigas italianas ou bolivianas ou argentinas ou colombianas ou chilenas e ao cruzar-me no metro com uma companheira que andará por Marrocos e a receber uma mensagem para despedida de uma amiga austríaca, e a chegar a casa e falar inglês com os irlandeses que fazem pão de banana e sconnes...
A experiência, para quem o tenha feito ou esteja a fazer, poderá soar a "been there, done that". Acredito que sim. Mas a verdade é que hoje me volto a deslumbrar com tudo. Hoje parece que todo o potencial de uma experiência assim me volta aos sentidos todos e mos deixa "apanhadinhos!" :) `

Às vezes limpa-se-me a cabeça de tudo o que já conheço, de tudo o que já sei e deixo entrar o que chega nessa altura. Não são muitas as alturas, claro, porque na maior parte das vezes estou imersa, dentro de mais para ver desde fora.
Mas nos dias como o de hoje, em que uma experiência forte mas boa e protegida me deixa "flotar"... Eu flutuo por aí, de olho aberto.
Estou na varanda da Calle Manigua, a rir-me da discussão sobre despesas de casa entre gente tão diferente. A pensar nas saudades da uruguaia que não vê a família há 2 anos e que anda pela casa com o telefone colado ao pescoço a tentar dar os parabéns ao irmão pequeno que já mal a conhece. A ouvir o valenciano fechar a porta do carro para ligar à namorada longe e a preparar-se para mais um dia de aulas exigente. A ouvir o argentino no sofá a ver séries patéticas que lhe relaxem o cérebro por que puxa todos os dias para criar mais um quadro ou preparar mais uma exposição. Eu, a portuguesa que pensa na sua vida em Portugal e sente a sua vida nesta atmosfera de diferenças espalhadas por todos os cantos.
Não falo desde a minha faceta de deslumbrada, essa já me foi passando... Falo desde a minha faceta de curiosa ou algo do género, que pensa no certo e definido que tinha em terra-mãe e do que foi ganhando depois de perder/deixar/pôr em stand-by algumas dessas coisas.
O que quero dizer é que, por mais que um meteorito viesse precisamente ao nº 40-42 desta rua tranquila onde se ouve o barulho das árvores, os pedacinhos de matéria que podiam ficar de mim seriam mais ricos. Uma riqueza completa por coisas boas e más, mas riqueza, sem dúvida.
Deu-me para a reflexão. Deu-me para pensar nos ganhos e perdas. Deu-me, sobretudo para pensar "QUE TANTO!..."
Há tanto nesta Terra. E eu, que conheço tão pouco, e de uma forma tão protegidinha, ainda, fico tão contente quando penso nisso e me apercebo de uma ponta do fio que isso tudo é...
Ahhh... 4,5 meses de t-group obrigaram a pensar, a sentir, a viver. Valeu a pena.

3 comments:

Anonymous said...

Gostei de te ler...

Um beijo

Anonymous said...

eia bem! capítulo fechado em grande!! boua!!

bianca said...

Mesmo dentro deste gabinete mirradinho consigo te sentir nessa varanda com som de natureza, de alma aberta, de olho brilhante, de sorriso nos lábios, e com o coração preenchido com quase tudo o que sempre quiseste. Parabéns pelos 4,5 meses. Parabéns Edite!