Tuesday, April 13, 2010

Vários Eus

(Haverá quem resista a tirar-se uma foto diante desta obra moderna do Metropolitan?).

Como será não ter mil facetas, mil vórtices de luz que reflectem o que vivem?
Como será acordar cada manhã a mesma pessoa?
Como será não ter mil vidros reflectores que olham para mil direcções e as perseguem a quase todas para as provar?

(Será possível não olhar para cima quando os elevadores têm espelhos grandes?) Apartamento en Wall Street.

Como será não deixar-se encantar pelo brilho sempre e de novo?
Como será viver sem a necessidade de um brilho, de vários brilhos, de muitos brilhos, constantemente, nos segundos que dura um dia e em cada dia?

(E se o Guggenheim fosse vermelho?)
Como será não querer devorar a realidade a golfadas? E mudá-la um pouco só para ver como é?

(Será possível não dançar o grande Pollock, se o guarda daquela sala não estiver a olhar com cara de caso?).

Como será não desafiar a espontaneidade?

(É possível ser mais aloucado do que o maravilhosamente aloucado Warhol?)

Como será querer ser um mais? Como será ter medo de ser ridículo e patético e inadequado?
(As cores estão feitas só para se ver?)

E como será resistir a tentações que os sentidos nos põem diante? E como será não viver com os 5 sentidos e não inventar um par mais?
(O respeito que nos merece o Antigo não pode ser gozado?) Metropolitan, NY.

Como será seguir, seguir sempre a algo ou a alguém?
Como será não poder inventar os dias e as horas e os caminhos por onde se quer caminhar?
(Será que o Tim Burton esperava seriedade diante da entrada para a sua exposição no MoMA?)

Será possível não ser miúdo de vez em quando e transformar o de vez em quando em quando-apetece?
Será possível não querer ser estrela da própria vida?
(Esta gente do MoMA sabe do que necessitamos:)



(Quem desenhou os tectos da Central Station devia saber que é irrestível querer ficar-lhes impresso de algum modo).

E como será ter vergonha de ficar parado num lugar porque se sente que é bonito? E que apetece estar no meio de muitos sendo só um, ali, parado.
(Será que as estátuas que se põem em lugares de arte, como no Lincoln Center, não esperam companhia de outras sombras?)

E como será andar tranquilo, sem querer mais?

No fundo, ser um mais no meio da multidão, com cara de quem já fez uma coisa mais mas lhe passou por cima, sem entrar e mergulhar e se perder, é só uma opção.
A maior parte das vezes não é bem a minha.

1 comment:

ana said...

toda a gente é mais que um.