Friday, July 10, 2009

Ao fundo...

Ao fundo.
Ao fundo vou e me quero meter.
Levo dentro a inquietude da sede de mais.
Rodopio quando me agarram até conseguir escapar-me de tentáculos que me espremem, ainda que só as ideias.
Sou mais pequena do que gostaría e conheço menos do que me apetecía conhecer.
Sei menos do que quero saber e fico aquem do que há para inspirar do mundo inteiro.
Sinto o desejo de sair das cascas e de voar mais pelo universo cósmico.
Mas aprecio as pequenas coisas que me passam pela vida e dou-lhes a importância que têm as vivências transformadoras.

Leio o blog do Saramago e imagino-me com ele numa tumbona, na ilha negra em que vive, essa Lanzarote misteriosa, a ouvir falar, ouvir falar... Para receber pontos e riscas (de cabelo) de vista e pensar sobre eles.
Leio as notícias e apetece-me estar no Iraque, no Afganistão, (nas Honduras não, que me deu demasiado medo), perto de intrépidos estrondos que fazem sucumbir vidas e esperanças. Para saber como é estar ali. Para sentir de perto o que se sente e partilhar sentimentos que não conheço de perto.
Imagino as bases onde se constroem foguqtões e shuttles e transporto-me às contas minuciosas de quem os prepara, aos cálculos infinitesimais de quem os programa. Também gostava de estar nesse campo de concentração mental e sentir que os detalhes determinam.
Gostava de estar numa sala de uma escola de dança em Cuba e ver o suor de esforço e repetição dos grandes bailarinos que crescem.
Gostava de estar num edifício de escritórios do Japão e sentir o fervor workaholico das centenas de pessoas que se entregam sem se lembrarem de si.
E de ver furar a terra seca de algum lugar de África ou de ver abrir um lenço de cores para meter um menino dentro e atirá-lo para as costas-canguru da mãe que segue a sua vida com a cria atrás.
Gostava de ver as meninas loiras do Leblon brasileiro, de bundona grande a beberem a água de um côco, e de subir às favelas entremeadas de antenas parabólicas e seringas perdidas e balas pelo chão e olhos grandes e mortes-sem-querer.
Gostava de ver a casa dos Kirshner argentinos e de lhes ouvir as conversas nocturnas, depois de terem sexo e antes de se levantarem para o país.
Gostava de estar sentada ao fundo da mesa do Obama equanto ele toma o pequeno almoço com a Blackberry ao lado, um beijo nas bochechas das filhas e um país para mudar nas costas.
Gostava de ouvir uma canção Mariachi entre as cores das vestimentas e a fome nas barrigas ou uma digestão de guacamole.
Gostava de estar na mala de alguns portugueses que se vão para ser mais coisas fora do país e que deixam para trás os bolinhos de bacalhau, o mimo da mãe e as tunas académicas.
Estar no Vietname e ouvir gente que tem na memória relatos da guerra e os conta e chora com eles ou mostra uma raiva contida ou já tão mastigada que se foi.
E em Chernobil e pensar num cogumelo venenoso a deixar cães sem vida pelo asfalto que se desfaz e desesperança em futuro, passado, presente.

Gostava de estar em Timor e ver o país crescer e coçar as picadelas de mosquitos de clima húmido entre gente que passou o massacre do cemitérios de Santa Cruz e que viveu o antes e o depois de Timor Lorosai.

E de ver cangurus descendentes dos do tempo em que a Austrália não era mais que um país-prisão de uns ingleses marados.

De estar na casa de uma família sueca que acaba de perder um filho com um tiro na cabeça porque lhe faltava calor. E de estar no seu sofá da sala a ver o "E agora?", passando por cima do "e porquê?".

É claro que gosto da minha vida cómoda, do meu dia a dia tranquilo, da minha segurança, da minha paz, da minha barriga cheia e do aburguesamento confortável do sofá de pele amarelo, dos candeeiros a meia luz e do solinho a entrar pela janela.
Está claro que usufruo do meu bairro sereno e amigável, da música imensa a que tenho acesso, dos amigos cuidadores que se preocupam, do trabalho que me relaxa e me anima.
Está claro que aproveito esta serenidade previligiada para conhecer países viajando a todo o gás sempre que me apetece, que saio com todo o tipo de pessoas, as conheço e me dou a conhecer.
Está claro que aprecio cada bocado de coisa boa que meto à boca pela manhã na cozinha branca e retirada do armário cheio.
E está claro que aprecio ter momentos para me sentar num jardim a ler um livro patético de um catalão qualquer que me relaxa os neurónios, e poder escolher o café onde me delicio pela manhã, e ter boas conversas com quem me cruzo pela vida, aqui ou fora, ao vivo ou por chat, e de usufruir do prazer serenamente excitante do sexo, ou de comprar uns brincos novos porque são bonitos ou de passar para saudar o senhor Serafim sapateiro que me faz sentir em casa, ou de ligar à mãe que adoro e me dá paz e âncora.

Está claro que aprecio tudo isso e lhe dou todo o magnífico valor que tem.

Mas na curiosidade de saber o tudo que há, sinto uma sensação de pequenez por não poder chegar a saber mais. De não chegar a conhecer mais. De não poder entender mais.

Será que cada um nasce com o tudo que pode viver?
Será que há limites para a capacidade de sentir, e de presenciar e de experimentar em primeira pessoa?

Há espaço em mim para mais e curiosidade pelo mais que existe na bola redonda.
Tenho sede de sair da concha cómoda e ir saber como é o equilíbrio instável, ainda que saiba que sempre gostaría de voltar à casca quentinha.

Mas também sei que as cascas quentinhas, às vezes sufocam e levam a banhos em lagos gelados só para poder voltar ao quente e agradável dos passos conhecidos.

Chateio com duas israelitas e uma palestitiana, relembro férias com uma croata e pergunto pelo casamento de uma polaca à sua irmã. Pisco o olho em cumplicidade a italianos amigos e recolho um livro de um amigo francês. Respondo à pergunta de um turco entre a cerveja que tomamos e rio-me das piadas da australiana, no café de tapas.
Melhorei, com uma venezuelana, a falar espanhol e aprendi-o com o amigo do peito africano.
Como qualquer coisa com a mexicana entre conversas cúmplices e vou ao cinema com a inglesa loira e divertida. Divirto-me e gozo com a americana e beijo um grego, diferente daquele outro com quem partilhei uma viagem.
Lembro-me do afegão que estava cá para curar um olho e relaciono-me com mil catalães. Mantenho e ganho novos amigos lusos. Escrevo aos amigos belgo-polacos e dou os parabéns ao brasileiro que terminou o master em Paris5.
Lembro-me das exposiçoes e do atelier do pintor argentino e da companheira de master boliviana. Penso que tenho um café pendente com a quase-médica uruguaya e recebo deliciosa resposta do director irlandês da Science Gallery.
A vida é cheia de passeios por aí, mesmo quando não saímos do café o bairro, bem sei.

Mas às vezes sabe bem desejar acrescentar algo mais a este tudo-cheio.

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