Sempre gostei, suponho que faz parte da minha adrenalina para a vida.
E por sorte, em alguns momentos estavamos eu, os meus olhos muito abertos e a minha câmara fotográfica no momento certo.
Para apanhar coisas assim:
Vamos acumulando os que mais gostamos nos braços. E quando já não cabem mais, damo-nos conta de que continuamos eternamente à procura do par. Abrem-se mais caixas, fazem-se suposições, inventam-se histórias, entre risos e olhares de "não me tires essa bota com fecho, que eu vi primeiro!!".
Aos poucos apercebo-me da cara divertida do jovem que nos alertou para os sapatos. Está num canto, a fumar e a rir. Ele percebeu antes de nós que as caixas só contêm o pé direito.
Pouco a pouco afasto-me da amálgama de gente e deixo as minhas primeiras escolhas pousadas, com cara desconsolada. E fico, também eu, a rever nas outras Cinderelas o ar desapontado por o par esquerdo nunca chegar...
Mas esta magnífica fada-borboleta ficou-me na retina. É uma jovem muito jovem, empoleirada numa caixa que a faz mais alta e com um vestido impecável que lhe chega ao chão e lhe dá o ar de imponência leve. Na cara tem maquilhados os traços perfeitos de voadora, e nas costas as asas que fazem acreditar que a qualquer momento levantará em direcção ao céu.
Olha a quem passa com uma doçura especial; uma cara perfeita, impassível e tranquila. É linda, esta fada-borboleta que vi depois sem vestidão, sentada no passeio, com os pezinhos esticados em ponta de eterna bailarina e a beber coca-cola.
Mas esta vista nunca me tinha apanhado. Ali estava eu, sentada num banco a picnicar com polacas amigas quando o vermelho das folhas e o verde de outras me entrou, como um pó, no olho. E de repente a figura tornou-se só fundo e estas cores geniais ganharam força por si mesmas... A Sagrada Família continua lá, atrás, quieta e inacabada. A dar lugar por momentos à natureza que se sente viva.
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