Tuesday, March 18, 2008

Paisagens de casa...








Há sítios que não precisam de registos em papel para os poder evocar espontaneamente....


Apesar das tantas mudanças ao longo dos anos, posso evocar perfeitamente os recortes das árvores que se vêm desde a casa onde nasci, no Porto. A ponte ao fundo, a cúpula do Palácio de Cristal, a outra margem, as cores do pôr do sol, as mil e uma garrafeiras, do outro lado.... Até as gaivotas que passam....
Da casa materna, da Póvoa, recordo o tom das paredes e o sol a entrar pela janela aos fins de tarde. E o jardim onde arrancava as pétalas de flor para fazer os meus bolinhos de terra, aos 6 anos.
Do apartamento a dois sei de cor as luzes filtradas: a laranja pelas manhãs, a azul pelas tardes, o sol a bater nas costas nos cozinhados de verão...
Da casa Manigua, a anterior, ficarei para sempre com a vista da varanda. Com o vento fresco das noites, com as conversas infinitas e os sentimentos tão diferentes que passaram por aquelas cadeiras juntas. E as folhas que infeitavam a árvore da frente da casa...
Agora da casa Sant Lluis fica-me o Casa. Fica-me o chegar à tarde para almoçar e ter o sol a sacudir lá fora. A despertar pela manhã e deixar-me guiar desde o meu quarto pelo brilho de luz que nos inunda toda a sala! De estar sentada, como agora, a trabalhar, sentada à mesa da sala e olhar lá para fora. E ver cores, texturas que parecem entrar pelo sentido da visão.
São os quintais dos outros, as casas dos outros, o que se vê daqui. Mas o céu de todos, a luz de todos, a inundação de sentidos que faz respirar Barcelona...
Hoje, dia em que fui ao CAT de saúde inscrever-me e em que já passou um mês desde que estou empadronada no bairro, sinto-me encaixada nesta vida.
E vou à janela vê-la passar e deixar-me levar por ela neste cheiro de fim de tarde...

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