Apesar das tantas mudanças ao longo dos anos, posso evocar perfeitamente os recortes das árvores que se vêm desde a casa onde nasci, no Porto. A ponte ao fundo, a cúpula do Palácio de Cristal, a outra margem, as cores do pôr do sol, as mil e uma garrafeiras, do outro lado.... Até as gaivotas que passam....
Da casa materna, da Póvoa, recordo o tom das paredes e o sol a entrar pela janela aos fins de tarde. E o jardim onde arrancava as pétalas de flor para fazer os meus bolinhos de terra, aos 6 anos.
Do apartamento a dois sei de cor as luzes filtradas: a laranja pelas manhãs, a azul pelas tardes, o sol a bater nas costas nos cozinhados de verão...
Da casa Manigua, a anterior, ficarei para sempre com a vista da varanda. Com o vento fresco das noites, com as conversas infinitas e os sentimentos tão diferentes que passaram por aquelas cadeiras juntas. E as folhas que infeitavam a árvore da frente da casa...
Agora da casa Sant Lluis fica-me o Casa. Fica-me o chegar à tarde para almoçar e ter o sol a sacudir lá fora. A despertar pela manhã e deixar-me guiar desde o meu quarto pelo brilho de luz que nos inunda toda a sala! De estar sentada, como agora, a trabalhar, sentada à mesa da sala e olhar lá para fora. E ver cores, texturas que parecem entrar pelo sentido da visão.
São os quintais dos outros, as casas dos outros, o que se vê daqui. Mas o céu de todos, a luz de todos, a inundação de sentidos que faz respirar Barcelona...
Hoje, dia em que fui ao CAT de saúde inscrever-me e em que já passou um mês desde que estou empadronada no bairro, sinto-me encaixada nesta vida.
E vou à janela vê-la passar e deixar-me levar por ela neste cheiro de fim de tarde...
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